Do livro Sonetos, da poetisa portuguesa Florbela Espanca, Ed. Biblioteca Ulisseia de autores portugueses, 2002. Pág. 153.
Esquecimento – Florbela Espanca
Esse de quem eu era e que era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.
Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda claridade!
Ceguei… tacteio sombras… que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!
Descem em mim poentes de Novembro…
A sombra dos meus olhos, a escurecer…
Veste de roxo e negro os crisantemos…
E desse que era meu já me não lembro…
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos!…




