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Lirismos de Quinta – 01/09/2011

1 set

O EV! traz nos Lirismos dessa semana as duas versões — o original em francês e sua tradução — de um soneto de Charles Baudelaire, do livro Les Fleurs Du Mal

La Cloche Fêlée

Il est amer et doux, pendant les nuits d’hiver,

D’écouter, près du feu qui palpite et qui fume,

Les souvenirs lointains lentement s’élever

Au bruit des carillons  qui chantent dans la brume.

Bienheurese la cloche au gosier vigoureux 

Qui, malgré sa viellesse, alerte et bien portante,

Jette fidèlement son cri religieux,

Ainsi qu’un vieux soldat qui veille sous la tente!

Moi, mon âme est fêlée, et lorsqu’en ses ennuis

Elle vent de ses chant peupler l’air froid de nuits,

Il arrive souvent que sa voiz affaiblie

Semble le râle épais d’un blessé qu’on oublie                                                                  

Au bord d’un lac de sang, sous un grand tas de morts,

Et qui meurt, sans bouger, dans d’immenses efforts.


O Sino Fendido

É amargo e doce ouvir, pelas noites de inverno,

Ao pé do crepitante arder de uma lareira,

As lembranças de outrora em toque lento e terno,

De um velho carrilhão da brumaceira.

Ditoso é mesmo o sino e sua voz vigorosa,

Apesar da velhice, é tão clara e tão bela,

E espalha pelo céu a prece religiosa,

Como um velho soldado, alerta, em sentinela!

Eu tenho a alma, porém, fendida e na agonia

Que quando quer com seu canto encher a noite fria,

Sua voz tem um quê de queixume dorido,

Abafado estertor de um soldado esquecido

De mortos num montão, junto a um lago de sangue,

Que esforços faz em vão e morre, enfim, exangue.

 

Pássaro azul

2 jun

Trecho de Rayuela, romance escrito por Julio Cortázar.

“Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha o seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água. “

Hiroshima, mon amour

17 mai

“Hiroshima, meu amor”, dirigido por Alan Resnais em 1959, não é somente um filme sobre o encontro efêmero de uma atriz francesa e um arquiteto japonês, na cidade de Hiroshima, e que a partir desse encontro amoroso eles compartilham um sentimento de cumplicidade e confissão, levando-a se relembrar dos ressentimentos  e dores do passado,  se relembrar da guerra e das suas fatalidades mais pessoais -  tudo isso num tom frágil e difícil, de difícil comunicação.

Emmanuelle Riva, como Elle, e Eiji Okada, como Lui.

A obra é, essencialmente, um trabalho sobre a memória e como ela é fragmentada – principalmente, sobre o esquecimento; sobre acontecimentos marcantes que gradualmente perdem significação e que, em determinados momentos, evocados durante uma conversa ou confidência, passam a existir paralelamente aos acontecimentos que decorrem na trama; sobre a ligação intrínseca que existe entre um evento doloroso e o local no qual ele aconteceu, e como um certo espaço é capaz de se tornar o símbolo de um sofrimento passado e até mesmo constituir a identidade da personagem.

Taí em seguida o meu trecho favorito do filme (e uma tradução em inglês que eu achei, para quem, como eu, ainda não é fluente em francês):

“Je te rencontre, je me souviens de toi. Qui es-tu? Tu me tues, tu me fais du bien. Comment me serais-je doutée que cette ville était faite à la taille de l’amour? Comment me serais-je doutée que tu étais fait à la taille de mon corps même?… Tu me plais. Quel évènement! Tu me plais. Quelle lenteur tout à coup…quelle douceur… tu ne peux pas savoir. Tu me tues, tu me fais du bien. Tu me tues, tu me fais du bien. J’ai le temps, je t’en prie. Dévore-moi, déforme-moi jusqu’à la laideur. Pourquoi pas toi? Pourquoi pas toi dans cette ville et dans cette nuit pareille aux autres au point de s’y méprendre? Je t’en prie…”

”How could I know this town was tailor-made for love? How could I know you fit my body as a glove? I like you. How unlikely. I like you. How slow all of a sudden. How sweet. You cannot know. You’re destroying me. You’re good for me. You’re destroying me. You’re good for me. I have time. Please devour me. Deform me to the point of ugliness. Why not you in this city and in this night? So like other cities and other nights you can hardly tell the difference? I beg of you.”

Para mim, já é o suficiente

30 mar

É com muitíssimo prazer que publico aqui hoje um texto de Clara Novais, uma grande amiga minha. Para quem já esteve numa situação amorosa complicada e acredita que foi sacaneado pela vida, ou para quem se considera sortudo e acredita que amar é lindo, único e indolor.  ( Btw, vocês do segundo grupo são loucos!). Não é difícil de se identificar. Aproveitem!

Para mim, já é o suficiente

E você fica me olhando com esse olhar filho da puta que não me deixa escapatória. Eu caio por você uma, duas, três, sete vezes. Caio quantas vezes você me olhar. E, se parar de olhar por um segundo que seja, eu caio de novo, caio de loucura, de querer saber por que parou de me  olhar. E vai ser assim para sempre, não porque eu seja fraca, nem porque seja amor isso que eu sinto. Eu caio porque esse olhar é filho da puta de um jeito filho da puta que só ele consegue ser. Está para nascer olhar mais cafajeste, que me agrade tanto, que me consuma tanto.
Eu me lembro muito bem a primeira vez que esse olhar me olhou. Eu fingi que não vi, doida para rir, doida para olhar de volta. Fingi que não vi e fui olhar para outro canto. E do mesmo jeito que você tem esse olhar, eu tenho alguma coisa, que eu não percebi até hoje o que é e nem sei como posso ser dona de tal, mas que lhe deixa torto e inseguro e cheio de vontade. É você com esse seu olhar e eu com isso que eu queria tanto saber o que é, só para poder usar mais vezes, só para usar quando eu quiser.
E desse olhar e dessa coisa surge essa relação que eu nunca entendi o que é, que nunca foi nada e nunca vai ser, é só isso, essa coisa maluca de corredor parado de festa, de traseira de carro estacionado no sítio, de banheiro de faculdade e  de elevador de serviços. Essa coisa que todo mundo vê, mas ninguém nunca viu. Essa coisa que está na gente, que escapa e volta e que nunca deixa de ser, mesmo nunca sendo nada. Essa coisa minha e sua e só. Isso.

O silêncio dos amantes

23 mar

Um dos meus contos preferidos, escrito por Lya Luft.

O silêncio dos amantes

Meu homem dorme ao meu lado. Gosto de acordar no meio da noite e sentir o seu calor, escutar sua respiração. Às vezes, dormindo, ele me apalpa de leve para ter certeza de que estou ali. Ou murmura alguma coisa também no entressono. O nome de outra mulher?

Sorrio no escuro.

Algo se move no jardim em torno da casa. Um anjo prendeu as asas nos galhos baixos; um menino arranhou o joelho num arbusto; pode ser o vento agitando um pano vermelho desbotado, ou o silêncio – que quando é demasiado vira lamento. Então me aconchego mais no corpo dele, e fico abrigada. Esse é o meu lugar no mundo.

Valentim foi um encontro totalmente inesperado. Sozinha há vários anos, estava acomodada numa rotina boa, começando a me curar da ferida que latejou por muito tempo: abandono, traição.

Na cidadezinha abriu-se um novo café, de que todos falavam. Minha primeira saída depois do tempo de reclusão foi quando dois casais de amigos ligaram insistindo, você tem de vir conosco, o lugar é adorável, o dono é um velho conhecido nosso.Era um café bem ao estilo de povoado na serra, muita madeira e grandes janelas dando para um jardim bem cuidado, pinheiros, e mais além os morros. O dono não estava, mas fomos atendidos por quem pensei no começo ser sua mulher – mais tarde saberia que era sua irmã. Uma mulher enérgica, com mãos de camponesa e uns divertidos olhos claros.

Sim, tinham inaugurado o café havia pouco tempo, os negócios iam bem, dentro de alguns meses achavam que teria lucro.

- A senha é a dona? – perguntei.
- Não – ela respondeu -, eu acho meu irmão, somos só nós dois vivos da família.

Não pensei mais no assunto até que um dia o encontrei numa loja de objetos de jardim, e alguém a meu lado comentou o novo café. Cumprimento, breve diálogo, ah, o senhor é o dono do café, e uma até logo amável. Outros encontros, mais visitas ao café, e sem muita demora estávamos namorando.

Valentim era, como eu, sozinho. Eu tinha sido traída por uma pessoa, ele pelo destino. Mas, ao contrário de mim, não conseguia deixar partir de verdade quem se fora.

Eu sabia que era preciso tempo. Cada perda tem sua hora de acabar, cada morto seu prazo de partir, e não depende muito da vontade da gente. Ele não estava curado. A primeira impressão que me deu, naquela loja de objetos de jardinagem, foi: que homem triste. Que olhar bondoso. E pensei, quando rodava no carro para casa: um homem assim eu poderia de novo amar; alguém assim podia me fazer bem, e acho que eu faria bem a ele. Alguém que não iria me trair e me despedaçar. Depois sacudi a cabeça, rindo da minha infantilidade. Ainda não estava curada do velho romantismo?

De um encontro casual e vários outros, combinados, nasceu um apaixonado amor.Os dois queríamos voltar a viver, queríamos nos curar, ele do luto, eu da rejeição. Demorou algum tempo mas ele reaprendeu a rir, e eu voltei a me sentir valorizada. Descobrimos gostos comuns: aquele pianista, aquele maestro, aquela gravação, aquele quadro, aqueles livros, aquele poema que líamos em voz alta.

Lavo a louça na pia diante da janela aberta, de onde enxergo o vulto dele movendo-se no seu ateliê: ele esculpe em uma madeira sedosa ao tato, no grande galpão antigo que transformou e adaptou para isso. Quando não cuida do café com a irmã, ou quando não estamos juntos, cada um lendo em sua poltrona, ou vendo televisão ou ouvindo música sem falar,  Valentim fica nesse estúdio onde de suas mãos e sua fantasia nascem figuras singulares.

Na sua primeira vida, como diz, foi um profissional bem-sucedido, cheio de amigos e mulheres. Só não pensava em casar. Aos quarenta e poucos anos encontrou aquela que o fez baixar a guarda e querer ser feliz. Uma mulher luminosa, ele me diria depois. Casou-se e transformou muita coisa: menos viagens, menos negócios, menos vontade de sucesso. Mudaram seus valores, suas perspectivas se humanizaram. Buscava mais tempo para estar em casa, para curtir a vida. Três anos depois resolveram ter um filho, coisa que antes não passaria pela cabeça dele. Sempre achara que não tinha o menor jeito. E quando a mulher, alegre e tão amada, estava quase no fim da gravidez, a morte, ciumenta, estendeu para fora das longas mangas as garras possessivas.

A jovem grávida entrava em seu carro diante de uma loja onde compara uns últimos objetos para o quatro da criança, uma menina que já tinha nome, clara. “Porque minha vida estava tão iluminada com tudo aquilo.”

Um assaltante a arrancou de dentro do carro e a derrubou no chão. Pegou rapidamente bolsa, relógio e celular da moça caída na calçada, e entrou no carro. As sacolas de compras ficaram no chão ao lado dela. Quando já estava arrancando, sem explicação, sem motivo a não ser a alucinação da droga ou a maldade mais primitiva, inclinou-se um pouco para fora, e disparou. Duas vezes, na barriga volumosa. O bebê explodiu junto com as entranhas da mãe. Naquela hora mataram também a Valentim.

Ele levaria longo tempo para voltar à vida. Bebeu pesadamente por alguns anos. Era como se estivesse se afogando no sangue do corpo da mulher amada e do bebê ainda não nascido, derramado na calçada. Botou fora sua fortuna, fez loucuras, tentou de vários modos se destruir. Recusou ajuda de amigos: queria aquela sua maneira covarde de se matar, como ele mesmo dizia.

Depois, sua natureza no fundo saudável, a memória da felicidade havida, as circunstâncias, o fizeram reviver. Lentamente ele voltava. Era preciso recomeçar uma terceira vez. Aos poucos foi se recompondo minimamente. Abrir o café na cidadezinha da montanha, sugestão de sua única irmã, que morava lá, foi um passo importante. Como deve estar sendo importante no seu processo
de cura esculpir, viver tranquilamente, e de novo amar.

A cicatriz, eu sei, esta ficou, feia e irredutível, no coração do homem que eu amo. Como estão algumas no meu: o casamento com um homem idolatrado, de cujo amor nunca duvidei, cuja fidelidade me parecia tão natural quanto a minha. Com quem eu pensava ter filhos, envelhecer, morrer. Num dia, sem qualquer sinal que eu percebesse, ele me levou para jantar, e mal começamos a comer anunciou o motivo daquela celebração: queria se separar. Estava havia meses com outra mulher, estava apaixonado, eu era boa demais, não merecia aquilo. E a vida dupla começou a lhe fazer mal. As palavras mais convencionais, ridiculamente comuns, eram, uma a uma, punhais rasgando o cenário da minha vida e envenenando os bastidores.

Se o teto do restaurante desabasse eu não teria ficado mais chocada. Por vários meses pensei que ia morrer de dor, oscilando entre humilhação e ódio. Levei muito tempo para sair à rua, ver amigos, voltar a trabalhar, viajar. Imaginava meu marido chegando em casa, entrando na nossa cama, recém-saído dos braços da outra mulher. Imaginava-o  dizendo e fazendo com ela as mesmas coisas que me levavam ao delírio. Muito devagar, consegui retomar minha vida,  durante um divórcio hostil de parte a parte. Rejeitada, eu o quis machucar de todas as maneiras possíveis, e me vingar, mesmo sabendo que era apenas patético. Muito me envergonhei disso mais tarde, e acabamos numa relação pelo menos cortês.

Minhas feridas quase fechadas me ajudam a entender que Valentim convalesce das suas. Talvez leve o resto da vida para se recuperar. Sua melancolia, que por vezes me impacienta, na verdade não o distancia de mim, como não nos separam seus silêncios. É difícil, porque não sei fingir que não vejo ou não me importo quando ele se fecha mais, mas vou aprendendo que é apenas natural, e percebo que está cada vez um pouco melhor. Estou me permitindo alegria, estou aprendendo a ser feliz outra vez, ele diz. Sei que vai superar a morte para poder se abrir para a vida. Está começando a lembrar com menos sofrimento. Talvez consiga esquecer.

Mas a moça morta com seu ventre grande não esquece. Ronda esta casa que agora é nossa no lusco-fusco da madrugada ou do anoitecer, e às vezes eu vislumbro o vermelho pálido de um vestido nos arbustos atrás da árvore grande. Percebo seus olhos melancólicos e desesperados, atrás da vidraça, vejo que se esgueira no fundo do corredor, uma rápida aparição que não amedronta. Será ilusão, será reflexo de alguma luz, será ela? O que está buscando ou querendo mostrar? Não tive coragem de falar com Valentim
a respeito, mas um dia perguntei a cor da roupa que ela usava quando foi morta. Ele pensou um pouco, o esforço de recordar o perturbava visivelmente. Depois disse:

- Não lembro. Foi tudo tão horrível que lembro de poucos detalhes. – Olhou para o lado, respirou fundo, e disse: – São coisas que precisei esquecer. – E corrigiu: – Eu quero esquecer.

Arrumando seu armário, encontrei pouco depois uma caixa fechada com um elástico. Como ele não tinha pedido segredo de nada, abri pensando que haveria retratos. Eu nunca tinha visto um retrato de Valentim menino, ou rapaz, ou da sua mulher perdida. Eram recortes de jornal, poucos e amarelados. Notícias do assassinato de uma jovem grávida de sete meses. Uma foto dela. O nome, nome de flor. Uma participação de falecimento. Várias notícias policiais. Nunca pegaram o monstro assassino. Em uma foto de jornal num colorido desbotado, via-se entre as pernas dos transeuntes consternados a moça caída na calçada, com vestido vermelho.

Mais uma vez não falei nada. Já houve dor em demasia. Não tem importância que a mulher morta venha, que espie tristemente pela janela ou se esconda entre as árvores. Talvez espreite a felicidade do homem amado com outra mulher, e sofra. Ou sente-se apaziguada vendo que ele, ao menos, voltou à vida. Será que aparece junto dele no ateliê para ver se esculpe uma figura feminina de ventre abaulado? Será que o acaricia com a mão gelada, e lhe mostra a barriga onde um bebê fantasma quer o amor de seu pai?

Ou ela pensa que somos o seu sonho?

Acho que Valentim sabe dessas aparições, sabe que as vejo, e fica agradecido porque não comento nada. Quando ele está mais triste, até sombrio, pergunto o que tem e ele responde: “Nada”. Sorri meio distante.

A moça grávida aparece cada vez menos. Está ficando translúcida, quase, também ela, um velho retrato desbotado. Não me faz mal. Não quer me perturbar. Há de estar se acostumando à sua nova condição. Mesmo se ela desaparecer por completo, nunca vou indagar a Valentim se ela o visitava no ateliê. Não preciso saber. Entre todos os amantes há zonas de segredo necessárias, que também podem unir. Invadidas, talvez provocassem inúteis sofrimentos. Leva tempo aceitar isso sem mágoas.

Acordo com Valentim a meu lado. Passo de leve a mão em seu rosto adormecido, acompanho com o dedo o contorno de sua buca, beijo seu ombro e me aconchego mais nele: aqui é o meu lugar no mundo. E o dele também. Do nosso jeito, estamos construindo – mais uma vez – a vida.

A dor faz parte.

Disorder And Early Sorrow

25 fev

I was in the habit of sleeping there in the
nearby abandoned graveyard,
two or three mornings a week,
whenever I experienced my worst morning hangovers
and
just didn’t feel like going right back to the
neighborhood bar where I spent my
afternoons and evenings.

it was cool and quiet
there in the tall wet grass in that graveyard;
the small insects didn’t crawl on
you as they did when you lay
in the dry itchy
summer grass.
sleep was more possible.

and always before sleeping
I’d look around the graveyard, at the tilting
headstones, their inscriptions obscured,
tilting at
very strange angles, having finally succumbed
to the law of gravity
(here were the truly forgotten dead
and I felt I wanted to join them.)
the old rusty wrought iron fence
that surrounded the
graveyard seemed more to sag than
tilt,
the quiet was utterly
marvelous,
and there was nobody about but the forgotten dead,
and I wondered about their bones
buried there,
bones having long ago escaped from the
rotting coffins.
it was all so curious,
so strange,
those long dead and forgotten bones,
those lives gone, totally
erased, their history now never to be
recorded.

I felt sad for thos lost lives
and felt
there was a perspective to
be gleaned about it all
but it was a vague one,
one only partially
understood.

I was usually awakened
with the noon sun
burning my upturned face
and I would rise,
not looking back at my faceless
companions,
and make my way
back to the bar.

then to sit there and look down
into my first draft
beer, wondering about things:
the forgotten dead,
a fly,
the bartender’s shirt,
voices emanating from those sitting
nearby,
the smell of urine from the
crapper,
the sound of passing automobiles,
somebody laughing,
my trembling hand lighting a first
cigarette.

nothing to do then but
get drunk
again.

Charles Bukowski

O morcego

19 nov

O morcego, por mim mesma


Observava o vôo rasante

da miúda criaturinha,

o sibilo agudo

por dentre os edifícios,

as torres

e as copas das árvores.

 

Era uma criaturinha miúda,

revestida em sombras,

que se foi tão breve quanto veio;

as asas mal sustentavam o peso,

asas negras que se confundiam com a noite

e passeavam, serenas,

sob o olhar de ninguém.

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