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Há 109 anos nascia o mais torto dos anjos

31 out

Se estivesse vivo, Drummond completaria 109 anos hoje. Frequentemente presente em nossos Lirismos, e mesmo em outros posts, viemos homenagear o Anjo Torto com um poema deste, e um de dos mais significativos de sua carreira literária.

Poema de Sete Faces – Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é serio, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Dia das Mães

8 mai

Neste Dia das Mães, o EV! faz sua singela homenagem trazendo um poema de Carlos Drummond de Andrade.

Para Sempre – Carlos Drummond de Andrade

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.


Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

 

Semana da Poesia EV! + Lirismos de Quinta

24 mar

Hoje os Lirismos de Quinta, traz um belo poema de Drummond, em advento da Semana da Poesia no EV!

 

Segredo, Carlos Drummond de Andrade

A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.

Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.

Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.

Lirismos de Quinta – 10/02/2011

10 fev

Mais um clássico de Drummond chegando aos Lirismos.

AS SEM-RAZÕES DO AMOR, Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

 

Lirismos de Quinta – 20/01/2011

20 jan

Não há muito o que dizer, sobre os Lirismos de hoje, apenas que Carlos sempre me comove.

Lira Romantiquinha – Carlos Drummond de Andrade

Por que me trancas
o rosto e o sorriso
e assim me arrancas
do paraíso?

Por que não queres
deixando o alarme
(ai, Deus: mulheres)
acarinhar-me?

Por que cultivas
as sem-perfumes
e agressivas
flores do ciúme?

Acaso ignoras
que te amo tanto,
todas as horas,
já nem sei quanto?

Visto que em suma
é todo teu,
de mais nenhuma
o peito meu?

Anjo sem fé
nas minhas juras
porque é que é
que me angusturas?

Minh’alma chora
frio e tristinho
não te comove
este versinho?

Lirismos de Quinta – 28/10/2010

28 out

Faz muito tempo que não coloco Carlos por aqui. Para ser lido na sexta.

Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.
.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.
.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

Os amores de Joapa

25 out

Acredito que o que marca mais o trabalho artístico de João Paulo Tiago seja amar demais.Joapa ama a cultura japonesa, as cores saturadas, os traços negros, finos e precisos, as aquarelas simples e geniais, as fantásticas histórias dos mangás e animes, a mensagem de amizade de Doraemon, os grandes e expressivos olhos, os corpos diminutos e grandes cabeças fofas dos chibis.

Ama o homoerotismo, as frontes baixas, as sobrancelhas grossas, os corpos definidos e vigorosos, as curvas fechadas, os pêlos, as barbas, os cabelos curtos, a comunhão entre dois semelhantes, o suor trocado, os suspiros úmidos, as relações que, de tão naturais, chegam a parecer pecaminosas.

Ama o Sagrado, o Espírito Santo, a paixão dos corações ardorosos e dilacerados, o Pai, a Mãe, o dourado, o azul e o vermelho das igrejas barrocas, as luzes vacilantes das velas em procissão.

Ama a música pop, dançar como se ninguém estivesse vendo, as coreografias, os videoclipes, os hits, os absurdinhos, os clubs, as pick ups, os remixes, as noites caramelizadas e alcoolizadas, os pubs, o suor no fim da noite, os amigos de uma noite e de uma vida inteira, a ressaca moral do dia seguinte.

Ama a poesia, seja nos versos de Drummond, nas epifanias de Clarice, nos vídeos de Björk ou nos desfiles de Lee.

Ama Lady Gaga, a diversão, o just dance, o little bit too much, os soldiers, a liberdade, a divice e as surpresas.

Ama o café, o chá, as massas e outros petiscos, seja em casa, seja no bar, mas sempre em companhia dos amigos.

Ama envolver-se, jogar-se, seja na arte, seja nos relacionamentos. Porém, tanto amor pode acabar se transformando em ódio ou amargura, mas sempre vem um novo amor apagar os resquícios ruins daquele que não deu certo.

Ama até quando o amor é uma paixão fingindo que é amor.

Afinal, acho que Joapa ama mesmo é amar. Ama o amor, pura e simplesmente.

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