Por entre linhas e formas de caos

25 maio

Particularmente falando, uma forma fracassada de se expressar artisticamente é a tentativa de racionalização da Dor, intensificada nos últimos anos. O motivo é claro: o autor que a usa dessa forma deseja que a expressão seja clara e essa acaba cindindo de sua real conotação e gênese. É justamente o irracional e sua capacidade hiperbólica de gritar aquilo que rasga, fere e engasga que a expressa de forma fiel e que, quando intelectualizado perde a feiúra que a encanta. Note que a dor é feia. Os olhos da (e para) dor não são visões de graça. O belo está exatamente em enxergar a ruptura da rotina otimista ou a própria “continuidade instável” da depressão em forma de arte, a transformação do caos em algo que alcance o olhar do leitor de forma a prendê-lo em atenção. Tentar intelectualizar a dor é torná-la prática e, portanto, descabê-la de sua real condição: nada fácil, nada bela, apenas crua e embaraçada.

O último CD de Otto Certa Manhã acordei de sonhos intranqüilos, lançado em janeiro de 2009, se opõe a esse pragmatismo no campo das artes e vem encantando (e cantando!) por onde passa, ficando aqui como uma sugestão para o ouvinte que deseja entender e absorver a expressão artística pura e completíssima há muito não percebida no cenário alternativo da música brasileira.

Já conhecido por sua qualidade de criação, o pernambucano e autor de obras musicais como Samba pra burro (1991) e Sem Gravidade (2003), busca em formas sonoras mais pesadas movimentos caóticos extra reais envolventes, que aproximam o artista de quem o ouve  sem uma sequer pausa para o café  e não peca na forma extravasar suas idéias.

O disco abre com a canção Crua, que já diz de si pelo título e que introduz ao que seriam os estágios da dor, trabalhados ao longo da peça (entender o novo cd de Otto como um conjunto é essencial  para a melhor absorção de sua proposta) e que, sem a qualidade impecável do arranjo instrumental e a interpretação do cantor,  não teriam a mesma força.

Certa noite acordei de sonhos intranquilos tem participações especiais de Céu em O Leite e de Julieta Venegas nas e faixas, que completam o cenário em que se brotam as ideias e 6 minutos e Agora sim são músicas que revelam o auge da criação compositor. As fotos do encarte, realizadas por Cafi e Talita Miranda na Barra da Tijuca não encaixariam melhor em outro disco e criam uma gastura que muito lembra o longa “Anticristo”, de Lars Von Trier, não devendo, portanto ficar de fora da apreciação.

Fica aí a dica e a insistência para não perder a chance de ouvir o disco, que está a venda na Acústica.cd por R$ 34,90 (Rua Fernandes Tourinho, 300, Funcionários) e disponibilizado na http://www.radiouol.com.br para quem está sem grana,mas não quer perder a experiência.

Té mais!

 

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2 Respostas to “Por entre linhas e formas de caos”

  1. maíra 30/05/2010 às 22:06 #

    Adorei Alice! 🙂 Otto é muito bom, também recomendo! Bjs

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    […] 10) Por entre linhas e formas de caos […]

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