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Festival Varilux de Cinema Francês 2010

2 jun

A nova edição do maior festival de cinema francês do Brasil promete encher salas pelo país durante o feriado.

Começa hoje a edição de 2010 do Festival Varilux de Cinema Francês, para a felicidade dos entusiastas da sétima arte e/ou dos desocupados de feriado santo. A última edição do evento, que aconteceu em Dezembro de 2009, obteve êxito em seu objetivo de “desmistificar a ideia de que o cinema francês é, por definição, reservado a uma pequena elite” e trouxe centenas de pessoas às salas de cinema de 14 capitais para a exibição de 7 filmes franceses de gêneros variados.

Em 2010, porém, o evento traz um número reduzido de capitais. Participarão dele apenas Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Serão exibidos 10 filmes de sucesso internacional e inéditos no Brasil. São eles:

  • 8 Vezes de Pé (8 fois debout Comédia dramática – 1h43 – 2009, direção de Xabi Molia )
  • Coco Chanel e Igor Stravinsky (Coco Channel & Igor Stravinsky – Drama – 2009 – 1h58, direção de Jan Kounen)
  • Faça-me Feliz (Fais-moi plaisir! – Comédia – 1h30 – 2008, direção de Emmanel Mouret)
  • Hadewijch (Hadewijch – Drama – 1h45 – 2009, direção Bruno Dumont)
  • O Dia da Saia (La Journée de la jupe – Comédia dramática – 1h28 – 2008, direção de Jean-Paul Lilienfeld)
  • O Pequeno Nicolau (Le Petit Nicolas – Comédia – 1h30 -2008, direção Laurent Tirard)
  • O Profeta (Un prophète – Drama, policial – 2h35 – 2008, direção de Jacques Audiard)
  • O Refúgio (Le Refuge – Drama – 1h30 – 2009, direção de François Ozon)
  • Oceanos (Océans – Documentário – 2009 – 1h44, direção de Jacques Cluzaud e Jacques Perrin)
  • Um Novo Caminho (Le dernier pour la route – Drama – 1h47 – 2009, direção de Philippe Godeau)

Como de praxe, o gênero Drama foi majoritariamente abordado, mas, desta vez, há uma expressiva presença de comédias e até um documentário.

Além da disseminação do cinema francês pelo Brasil, o festival também

“permitirá trazer ao Brasil vários produtores e cineastas franceses que discutirão das condições de aplicação do novo acordo de coprodução franco-brasileiro que será assinado durante o festival de Cannes, e das possibilidades de ampliar a cooperação entre as duas cinematografias.”

O evento acontece no Usiminas Belas Artes (Rua Gonçalves Dias, 1551, Belo Horizonte, Minas Gerais) de hoje (02/06/10) ao próximo sábado (10/06/10). Mais informações aqui.

Sobre o ser-eu e nós.

2 jun

 

 Necessária e longa deglutição  definiria bem o caminho que percorri até  o alcance às percepções que atravessam  (continuamente) a mente do espectador-eu  durante as horas (sofridas!) em que se assiste Lavoura Arcaica (2003, Luiz Fernando carvalho), uma,duas, quatro vezes.

O longa é uma reprodução da obra estreante de Raduan Nassar, escritor brasileiro, cuja vida produtiva no campo literário durou apenas 9 anos ( Raduan é também autor de Um Copo de cólera e do conto o Ventre seco) .

 A história se passa em flashbacks (o filme foi gravado em uma área rural de Minas Gerais) da mente deprimida de André, um dos sete filhos de uma família libanesa, que sai de casa e relembra, ao lado do irmão Pedro, que o vai buscar de volta ao lar, a vida na Fazenda antes de sua partida. É nesse diálogo e entre constantes lembranças da casa e da rotina antes de sua fuga, em que a trama desenrola-se e ao espectador revela-se uma família cercada de valores e segredos.

Eu poderia terminar minha publicação aqui. Mas seria uma suma, ou uma mera resenha. Os dias (doloridos), a absorção da idéia e das imagens do filme seriam destruídos por palavras frias, e frieza definitivamente não alcança ninguém que se disponha a assistir (ou ler) a obra com o afinco a que me impus.

Lavoura Arcaica remonta ao mais primitivo dilema humano: o incesto. E o símbolo dessa questão trabalhada no filme é uma releitura da forma social, opressiva aos seres-nós, constituída de valores inerentes a sua existência (representada pela vida no sítio e pela convivência familiar),que pressupõe a marginalização daqueles que não se enquadram em seus princípios.

Os valores e a opressão estão no filme e no livro marcados pela mesa e pelos sermões do pai (Raul Cortez) e a marginalização é incorporada de forma inigualável por André (Selton Melo), Ana (Simone Spoladore), Lula (Caio Blat) e pelo silêncio. É a mudez, ao ouvir as lições, na submissão, na prisão do “eu” e no olhar (o que condena e o que é condenado) que envolve aquele que assiste e permite-se incorporar ao drama, com a ajuda da direção fotográfica sensível de Walter Carvalho, em cenas amareladas e marcadas por altos contrastes, fazendo-o absorver em uma vida bucólica campestre, foiceada pelas descobertas da sexualidade, da rebelião e, porque não, pela revelação de um amor (descartando-se a idéia do impudor, do absurdo, da imoralidade, que só nos é imposto quando sob o olhar de humildes “assistidores” , invariavelmente seres sociais, incrustados naquilo que vale para nós ( e unicamente a nós) como certo, errado, puro e sujo.

Eu demorei tanto (e delongaria-me por talvez mais um,dois,três meses) para escrever sobre uma obra e publico esse pequeno depoimento insatisfeita: sou como Ana, André, Lula e Pedro, Zuleika, Rosa e Huda.Sou como a doce Mãe (Juliana Carneiro) e sua “carga de afeto” e como o Pai, a copa da árvore (mais uma).Não posso, pois me descartar como ser social ou ignorar que tudo o que vejo ou penso é fruto de um eu pesado de obrigações e comportamentos. Se estou à margem ou se sou folha seca que cobre os pequenos pés umedecidos dos mais fervorosos descobridores dos prazeres e medos, que o viço da infância não deixa reluzir,não sei.
Sei que não é a técnica que descreve a aflição de assistir ( e participar) do amor,do medo, do ódio, da partida, do arcaico.Mas é essa “fabulação, um sonho, com tamanha força de contaminar o escuro do cinema como uma peste” (Luiz Fernando Carvalho).

Ouço La Chute,de Yann Tiersen.