Sobre o ser-eu e nós.

2 jun

 

 Necessária e longa deglutição  definiria bem o caminho que percorri até  o alcance às percepções que atravessam  (continuamente) a mente do espectador-eu  durante as horas (sofridas!) em que se assiste Lavoura Arcaica (2003, Luiz Fernando carvalho), uma,duas, quatro vezes.

O longa é uma reprodução da obra estreante de Raduan Nassar, escritor brasileiro, cuja vida produtiva no campo literário durou apenas 9 anos ( Raduan é também autor de Um Copo de cólera e do conto o Ventre seco) .

 A história se passa em flashbacks (o filme foi gravado em uma área rural de Minas Gerais) da mente deprimida de André, um dos sete filhos de uma família libanesa, que sai de casa e relembra, ao lado do irmão Pedro, que o vai buscar de volta ao lar, a vida na Fazenda antes de sua partida. É nesse diálogo e entre constantes lembranças da casa e da rotina antes de sua fuga, em que a trama desenrola-se e ao espectador revela-se uma família cercada de valores e segredos.

Eu poderia terminar minha publicação aqui. Mas seria uma suma, ou uma mera resenha. Os dias (doloridos), a absorção da idéia e das imagens do filme seriam destruídos por palavras frias, e frieza definitivamente não alcança ninguém que se disponha a assistir (ou ler) a obra com o afinco a que me impus.

Lavoura Arcaica remonta ao mais primitivo dilema humano: o incesto. E o símbolo dessa questão trabalhada no filme é uma releitura da forma social, opressiva aos seres-nós, constituída de valores inerentes a sua existência (representada pela vida no sítio e pela convivência familiar),que pressupõe a marginalização daqueles que não se enquadram em seus princípios.

Os valores e a opressão estão no filme e no livro marcados pela mesa e pelos sermões do pai (Raul Cortez) e a marginalização é incorporada de forma inigualável por André (Selton Melo), Ana (Simone Spoladore), Lula (Caio Blat) e pelo silêncio. É a mudez, ao ouvir as lições, na submissão, na prisão do “eu” e no olhar (o que condena e o que é condenado) que envolve aquele que assiste e permite-se incorporar ao drama, com a ajuda da direção fotográfica sensível de Walter Carvalho, em cenas amareladas e marcadas por altos contrastes, fazendo-o absorver em uma vida bucólica campestre, foiceada pelas descobertas da sexualidade, da rebelião e, porque não, pela revelação de um amor (descartando-se a idéia do impudor, do absurdo, da imoralidade, que só nos é imposto quando sob o olhar de humildes “assistidores” , invariavelmente seres sociais, incrustados naquilo que vale para nós ( e unicamente a nós) como certo, errado, puro e sujo.

Eu demorei tanto (e delongaria-me por talvez mais um,dois,três meses) para escrever sobre uma obra e publico esse pequeno depoimento insatisfeita: sou como Ana, André, Lula e Pedro, Zuleika, Rosa e Huda.Sou como a doce Mãe (Juliana Carneiro) e sua “carga de afeto” e como o Pai, a copa da árvore (mais uma).Não posso, pois me descartar como ser social ou ignorar que tudo o que vejo ou penso é fruto de um eu pesado de obrigações e comportamentos. Se estou à margem ou se sou folha seca que cobre os pequenos pés umedecidos dos mais fervorosos descobridores dos prazeres e medos, que o viço da infância não deixa reluzir,não sei.
Sei que não é a técnica que descreve a aflição de assistir ( e participar) do amor,do medo, do ódio, da partida, do arcaico.Mas é essa “fabulação, um sonho, com tamanha força de contaminar o escuro do cinema como uma peste” (Luiz Fernando Carvalho).

Ouço La Chute,de Yann Tiersen.

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4 Respostas to “Sobre o ser-eu e nós.”

  1. maíra 02/06/2010 às 9:26 #

    só uma coisa: fiquei mesmo com vontade de assistir!

  2. Matheus Rabelo 05/06/2010 às 16:32 #

    O filme, deixei de ver porque passava mal no dia. O livro li. Mais de uma vez. Uma ressalva importante a fazer sobre minha leitura é que Raduan tem uma das melhores prosas que já li.

  3. Patrícia Quiroga 06/06/2010 às 4:50 #

    É quase uma tortura, após ler tal publicação, saber que tenho que esperar 2 meses pra assistir e ler essa história fascinante. E eu tenho certeza que não é só uma história, é uma história de vidas. Vidas que aconteceram e continuam acontecendo distante das nossas vidas. E é talvez por se tratar de vidas que essa obra te interessou tanto, não é mesmo?! 🙂

    Adorei a escrita, acho que agora sim descobrimos o seu grande dom, Alice Flicts. Entre muitos outros, é claro.

    Você me enche de orgulho, minha irmã.

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