Assassinato

3 ago

Tive vontade de postar alguma coisa, e vi que não tô com ânimo e nem criatividade para escrever alguma coisa. Então eu catei esse continho que escrevi em 2008. Chama-se Assassinato.


“Morri numa manhã de fevereiro, dessas que começam com o céu azul-e-sombra e sua brisa fresca e terminam num sol insuportável, o ar abafado e grudento. Era um festival, dia da cultura, ou algo do tipo, e metade dos alunos haviam sido dispensados das salas de aula e redirecionados para o pátio, abafando-o com o seu burburinho habitual.

Eu andava pelos corredores do segundo andar, que estavam tranqüilos, mas pareciam conversar entre si, em silêncio, armando contra mim. Os seres inanimados zumbiam alto, gargalhavam, escureciam mais adentro, e me guiavam para outro lugar. Desci incontáveis vãos de escadas, nem parecia que eram dois andares ou três, mas sim uma centena deles, uniformes e brilhantes, como quem desce do céu até o quinto dos infernos – enquanto descia, ao invés de calor, senti um frio mórbido; parecia que o dia ficava lá por cima, sem se atrever no nefasto do subsolo.

Atravessei uma passagem secreta e empoeirada (que era na verdade um corredor que caíra em desuso) e segui por três minutos no escuro, a mão escorada na parede e o pulso palpitante, até que avistei um antigo vestiário no fundo do corredor, precariamente iluminado, e o adentrei sedenta, frente ao meu reflexo espelhado. Não me recordava da existência do local, muito menos das escadas que me levaram ali; mas de qualquer forma, ele estava ali, sombrio, sépia. Olhei-me no espelho e senti medo, precipitação, senti tudo, de repente. Os meus olhos escureciam do ébano ao ópio, minha boca ia do vermelho ao sangue – se eu chorava, era difícil dizer, pois a luz era pouca e o espelho era sujo.

Era fato que meus olhos queimavam e minhas pernas reclinavam sobre o azulejo, enquanto meu tronco buscava apoio no sujo do refletor, mas o choro para mim sempre fora árduo e doloroso, escasso, mas que por ora vinha a fim de me secar. E secava, ao ponto que estava irremediavelmente vazia. O meu reflexo sorria, e apontava-me a minha morte: prateada e reluzente, semi-automática, misericordiosa.

É conceitualmente errado dizer suicídio, que leigamente fora a razão da minha morte, por eu ser na realidade duas existências distintas e miseráveis. A morte era uma que implicava à outra. O estopim do revólver e a bala que me atravessava o peito me revelavam o sangue que escorria lento, o peito que arfava por ar, o pulmão que inundava e asfixiava– era a morte lenta, risonha como o escárnio, selvagem como a enchente de um rio. Era como morrer para mim mesma. E morri: no décimo dia de fevereiro, no minuto iminente à décima hora da manhã.”

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3 Respostas to “Assassinato”

  1. Laura Amorim 03/08/2010 às 17:33 #

    Você devia publicar um livro, sério.
    Mas não pra criancinhas, por favor hahaha =)

  2. Clá 03/08/2010 às 18:22 #

    Sou sua fã confessa quando se trata de escrita, você sabe! Sensacional! Muito bem redigido e uma história bem bolada. Adorei.

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  1. Justin Bieber conta seus causos « Extra Virgem! - 03/08/2010

    […] pausa para descanço, o Extra Virgem! sai das férias hoje trazendo mais do de sempre. Além do ótimo texto da Café, trouxe uma notícia que temo não alegrar a maioria de nossos leitores. Justin Bieber, ídolo […]

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