O sentido da vida, por Stanley Kubrick

13 ago

Vi essa há algum tempo, lá no Trabalho Sujo.

Num certo momento durante uma entrevista concedida a Eric Nordern para a Playboy, em 1968, eis que o cineasta revela:

_

Aos não-entusiastas da língua inglesa, arrisquei meus dotes linguísticos na tradução a seguir. Aproveitem (e, aos entusiastas, não se acanhem em apontar possíveis erros).

PLAYBOY: Se a vida é tão sem propósito, você acha que vale a pena viver?
KUBRICK: Sim, para aqueles que conseguem, de alguma forma, lidar com a nossa mortalidade. A falta de sentido da vida força o homem a criar seu próprio significado. As crianças, é claro, iniciam suas vidas com um senso de admiração imaculado, uma capacidade de experimentar o gozo total  em algo tão simples quanto o verde de uma folha; mas à medida que crescem, a consciência da morte e da decadência começa a invadir suas mentes e a subitamente erodir sua joie de vivre¹, seu idealismo – e sua suposta imortalidade. À medida que uma criança amadurece, ela vê morte e dor em todos os lugares, e começa a perder a fé na bondade suprema do homem. Mas, se ela for razoavelmente forte – e sortuda – ela pode emergir desse crepúsculo da alma para um renascimento do élan² vital. Tanto por causa de, e apesar de sua consciência quanto à falta de sentido da vida, ela pode forjar um novo sentido de propósito e afirmação. Ela pode não conseguir recuperar o mesmo sentimento puro de admiração com o qual nasceu, mas ela pode dar forma a algo muito mais duradouro e sustentável. O fato mais assustador a respeito do universo não é que ele seja hostil, mas que seja indiferente; porém, se pudermos entrar em acordo com essa indiferença e aceitar os desafios da vida dentro dos limites da morte – por mais que o homem possa fazê-los mutáveis -, nossa existência como espécie pode ter um significado genuíno e satisfatório. Por mais vasta que seja a escuridão, nós devemos nos fornecer luz própria.

¹ joie de vivre – do francês joie, “alegria, prazer”; de, “de”; vivre, “vivo, viver” – “alegria de viver”
² élan – “elã”; impulso, entusiasmo, disposição, ímpeto, força.

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