Arquivo | setembro, 2010

Sai ou não sai?

30 set

Hoje, após a leitura de certos textos inspiradores, me deu uma vontade irresistível de escrever uma historieta meio bestinha, bem trivial mesmo. Pari o que transcrevo aqui agora:

Sai ou não sai?

E assim resolveu-se o caso da rapariga que temia profissionais dentários. Rapariga não, que não era portuguesa nem mulher da noite. E resolveu-se, assim no reflexivo, porque a solução não foi procurada (muito pelo contrário, dela fugia-se à ocasião de encontrada a outra), mas veio assim como que presente e castigo divino ao mesmo tempo.

Pois, veja você, que em plena segunda-feira pela manhã, Dona Arlinda repreendia a filha de onze anos e, a julgar pelo volume dos brados, apreciava que também aos ouvidos dos vizinhos chegasse a discussão. Ela evocava a já avançada idade da pequena e a vergonha que era uma moça, assim já com seios, empacar como uma mula frente à necessária ida a um doutor dos dentes. A menina, que ostentava quase imperceptível par de ovos fritos por debaixo da blusa, com a cara enfezada cutucava o dente maldito. Melhor seria se o miserável jamais tivesse brotado em sua boca. Agora, porém, depois de anos assentado ali quietinho, cumprindo até bem suas funções sobre o bife do almoço e sobre o braço do irmão, o dente parecia indeciso sobre continuar ou não habitando aquela região.

– Eu, minha filha, na sua idade arrancava dente mole era com porta! Amarrava uma ponta da linha no bicho e a outra na maçaneta e PUM! fechava e o danado saía era voando! Mas, você, medrosa desse jeito, não quis a porta e eu lhe arranjei dentista. Tudo bem, vá lá, agora me vem recusar o médico também?! Mas é de jeito nenhum que a gente deixa de ir lá hoje! De jeito nenhum!

A intervenção do pai fez-se necessária já que a mãe, de tanto ladrar, quase não mordia. Não mais que dez minutos das austeras e sóbrias palavras do homem da casa e a pequetuxa já preferia passar as férias no dentista a permanecer no escritório do progenitor. Contudo, já na sala de espera do famigerado profissional, ao flagrar o inchaço na fuça do último paciente, lhe acometeram novamente seus pavores odontológicos.

– Mãe, mãe, vamos voltar. Que eu juro, mãe, eu juro que prendo o dente na porta.

Já era tarde demais, percebeu porém, dado o olhar da mãe em resposta. Estavam ali e o dentista abriria a porta a qualquer momento com o avental e as luvas emplastados de sangue para lhe arrastar até a cadeira onde seria presa por enfermeiras canibais.  Além do mais, foi no instante seguinte que lhe chamaram pelo nome e uma pedra de gelo lhe galgou a espinha. O carinho da mãe ao conduzir a filha até a porta do doutor atraiu o olhar dos próximos a serem atendidos e deixou marcas no chão como de pneus brecando. A digníssima senhora abriu logo a porta e tratou de socar-se para dentro junto à filha, que já ameaçava um infarto a despeito do largo sorriso do dentista de cabelos dourados.

Quando sentada na cadeira, a menina parecia já conformada com seu destino e tinha pra si que a morte não poderia ser tão ruim quanto dizia a televisão. Os dedos experientes dentro das luvas lhe abriam com delicadeza a diminuta boca e cutucavam daqui, cutucavam de lá. “É um processo bem simples, na verdade…” dizia o homem, e a infante insistia em prolongar o eco daquelas palavras nas profundezas de sua cabecinha.

– Já está na hora deste dentinho sair sim, lindinha, mas ele parece estar um pouquinho encravado aí dentro. Já tiramos ele daí, você vai ver só. Tudo o que precisamos é de uma pequena anestesiasinha.

Anestesia, no tenro entendimento da garota, era coisa do bem e só fazia melhorar a vida da gente, de modo que aquelas últimas palavras lhe haviam reconfortado como nada mais desde que adentrara o recinto. O doutor virou-se de costas e, ao retornar, porém, empunhava uma seringa cuja agulha devia medir quilômetros. No mesmo segundo a tranquilidade esvaiu o mirrado ser humano sentado na cadeira que, de um pulo, retirou-se de cima do assento num ímpeto de deixar o médico, a mãe e a seringa para trás o mais rápido possível. Objetivo que teria sido atingido se, entretanto, a secretária não tivesse na mesma hora aberto a porta para a qual a menina se dirigia como o diabo correndo da cruz. Um tanto atordoada pela frenada que recebera da porta, a mocinha levantou-se do chão massageando o lado da face. Um olho meio roxo, outro hematoma mais leve ali pela área do queixo e um dente, assim branquíssimo, palpitando na palma da mão.

Lirismos de Quinta – 30/09/2010

30 set

Na última quarta-feira (22/09), iniciou-se oficialmente a primavera. Nada mais apropriado que uma pequena coleção de haikais sobre o tema.

haru nare ya na mo naki yama no asagasumi
Já é primavera —
Uma colina sem nome
Sob a névoa da manhã.
Bashô

.

hashigeta ya hi wa sashi nagara yûgasumi

Pelas vigas da ponte,

Os raios de sol

Na névoa da tarde.

Hokushi

.

asagoto ni onaji hibari ka yane no sora

A cada manhã,

No céu sobre o meu telhado,

A mesma cotovia?

Jôsô

.

ikanobori kinô no sora no aridokoro

Uma pipa

No mesmo lugar

do céu de ontem!

Buson

.

harusame ya utsukushû naru mono bakari

Chuva de primavera —

Todas as coisas

Parecem mais bonitas.

Chiyo-jo

.

yama no tsuki hana nusubito o terashi tamou

A lua da montanha

Gentilmente ilumina

O ladrão de flores.

Issa

.

haru no umi hinemosu notari notari kana

Mar de primavera —

O dia todo,

Ondula, ondula …

Buson

.

Achei tudo aqui (e tem +).

Retrato vivo

30 set

Eu já havia visto este projeto, mas só agora me lembrei de postá-lo. Aproveitando a deixa das fotografias animadas da Vogue Hommes Japan, apresento a vocês o projeto 200 Portraits, realizado pelo SHOWstudio do fotógrafo Nick Knight, em associação com a i-D Magazine, em comemoração dos 30 anos dessa revista. São mais de 200 pessoas influentes na música, moda e cultura atualmente, escolhidas a dedo e fotografadas por Knight. O interessante é que os retratos são vivos, sendo divulgados vídeos com horientação vertical, como uma fotografia do mundo dos bruxos de Harry Potter. Aqui está a de Lady Gaga (claro!) e as outras você pode conferir no site SHOWstudio.com.

Modelo vivo

30 set

No post sobre Nicola Formichetti, deixei de falar de dois ensaios para a Vogue Hommes Japan que deram o que falar nos últimos meses. O primeiro, esperado há muito tempo por seus fãs (assim como eu), sugeria a existência de Jo Calderone, um mecânico de origem italiana, recém-descoberto e estreando como modelo através das lentes de Nick Knight. Porém, em pouco tempo, os little monsters descobriram de quem se tratava: Lady Gaga. O engraçado é que, em entrevista à revista, ele afirma ter tido um caso com a cantora. (?)

O segundo ensaio trata-se de um pôster que mostra Lady Gaga vestindo um biquíni de carne real, um prelúdio para o VMA 2010. A fotografia é de Terry Richardson, de quem falaremos em breve.

Porém, a grande novidade é a versão animada de inverno da Vogue Hommes Japan, lançada diretamente para iPAD. Com styling de Nicola e fotografia de Pierre Debusschere, o ensaio ficou interessantíssimo e bizarro, no melhor estilo Formichetti. Enquanto você não tem seu iPAD, confira o ensaio aqui, no EV!

Dos 8-bit à vida real

28 set

A artista do DeviantART Kalapusa gosta de trazer ícones dos video-games 8-bit para a vida real. Ela ainda está começando e seus trabalhos são, apesar de não muito belos, bastante interessantes. Já imaginou o Pac-Man na sua frente?

Por trás de uma Lady, há sempre um Mr.

27 set

Dois descendentes de italianos, mas ela é de Nova Iorque e ele, de outro planeta, chamado Japão. Duas origens extremamente excêntricas que, ao se encontrarem, geraram o fenônemo chamado Lady Gaga.

Lady Gaga, Nicola Formichetti e Matt “Dada” Williams, por Nick Knight, para i-D Magazine

Com certeza, Stefani Joanne Angelina Germanotta não teria se tornado a Gaga que conhecemos hoje e, provavelmente, não faria tanto sucesso sem a colaboração de Nicola Formichetti. O fashion stylist, consultor de moda e diretor criativo conheceu a cantora em um ensaio para a V Magazine, em 2009. A partir daí, o conceito “Gaga” mudaria. Embalada pela fase “The Fame Monster“, a parceria entre eles mostrou funcionar. Nicola começou a ser responsável por todos as produções da cantora, desde os figurinos da promissora “Monster Ball“, passando pelos ensaios para revistas, entrevistas e performances na TV, até os escandolosos looks exibidos por poucos minutos, no entra e sai dos hotéis. Construindo uma carreira em que suas roupas são quase tão importantes quanto sua música, Gaga deve a Nicola grande parte de seu sucesso estrondoso.

Ensaio em que conheceu Gaga, para V Magazine

Lady Gaga no Royal Variety Show, apresentando-se para a rainha Elizabeth II

Lady Gaga no Accessories Council Excellence Awards

Lady Gaga em performance de “Alejandro”, no American Idol

Lady Gaga após o histórico VMA 2009

Mas Nicola Formichetti não é somente responsável pelo visual de Gaga. Sempre envolvido em projetos novos, ele também é diretor de moda da Vogue Hommes Japan (que está fazendo sucesso mundial), e editor de moda de revistas como Dazed & Confused e V Magazine. Além disso, trabalha com os maiores fotógrafos e grifes do mundo, como Hedi Slimane, Steven Klein, Nick Knight, Mariano Vivanco, Alexander McQueen, Prada e Armani. Recentemente, foi escolhido como o novo diretor criativo de Thierry Mugler, um dos estilistas mais originais da história da moda. O talento de Nicola está em conseguir dialogar com muitas culturas, sem preconceitos, agregando o lixo ao luxo, o elegante ao freak e o ordinário ao original.

Ensaio por Mariano Vivanco, para Vogue Hommes Japan

Ensaio por Steven Klein, para Vogue Hommes Japan

Ensaio por Mariano Vivanco, para Commons & Sense Man

Ensaio por Hedi Slimane, para Vogue Hommes Japan

Bienal por Amostragem

25 set

A 29ª Bienal das Artes de São Paulo está dando o que falar, cheia de obras polêmicas. Enfim, aí está uma pequena amostra do que está sendo a Bienal. Aproveitem.