Lolita

11 set

Lolita, romance escrito pelo russo Vladimir Nabokov, foi o primeiro livro a me conquistar. Não é que eu nunca tivesse lido obras marcantes, mas parecia que eu era insensível, intocável. Lia e relia, em busca de algum significado, livros que não me traziam o ardor que eu queria sentir. Por vezes fingia uma lágrima, deitava na cama e negava que o sono me viesse até que forjasse uma comoção interna. Convenci até mim mesma – chorava e me desesperava noite adentro como se fosse uma peça de teatro. Aprendi tão bem a fingir dor que comecei a antecipar dor e paixão. Mas não é esse o tópico em questão. Aos dezesseis anos, encontrei o livro que revolucionaria toda a minha dimensão pessoal e a forma com a qual eu apreciava o amor: Lolita.

Na época do lançamento, no início dos anos cinquenta, o livro foi motivo de muita controvérsia e escândalo – em parte, por conta da relação condenável entre um homem adulto e uma garota pouco inocente, e em parte devido ao erotismo embutido na narrativa. Acusaram o escritor de pornografia explícita e o censuraram.

Não interessa tanto o enredo para entender a minha queda colossal pelo livro, mas vai aí um resuminho básico: o romance polêmico narra a história de Humbert Humbert, um professor de meia-idade que se apaixona por sua aluna, Dolores Haze, uma ninfeta de doze anos, que mais tarde se tornaria sua enteada, amante e refém. Em cárcere, o narrador escreve sua defesa e confissão, em geral, memórias de seu amor desesperado e doentio por Lolita. Após a morte trágica de Charlotte Haze, mãe de Lolita e esposa do professor (embora ele de fato a odiasse), H.H busca a menina num acampamento e atravessa o país com ela, encenando uma relação de pai e filha e, na verdade, vivendo como amantes. Lolita rebela-se várias vezes e, eventualmente, foge. Humbert se vê desolado e inicia uma busca incessante pelo amor da sua vida.

Humbert e Lolita: cena do filme de 1997 dirigido por Adrian Lyne

É difícil explicar o porquê do meu fascínio pela história, o porquê da minha obsessão em reescrever em meus contos o amor descrito no romance. A verdade é que sou uma idealista.  O amor no livro é expresso de uma forma muito intensa, bela, incondicional, apesar de “condenável”. É aquele sentimento de incapacidade mesmo, de perda total. No mundo contemporâneo, a sensibilidade e a fraqueza são repudiadas e as relações amorosas são tratadas como jogos sexuais de controle e desapego. Eu abomino esse lado impessoal e plastificado da vida. O desespero, o choro, o caos, tudo está tão ligado ao humano e ao amor que me parece grotesco ignorar essa esfera tão preciosa de nós mesmos. A imperfeição é encantadora. Esse é o meu conceito do que o amor deveria ser, embora nunca tenha visto nada parecido na vida real. Talvez nem exista. Mas eu prefiro admirar Lolita do que o mundo real.

Sue Lyon, interpretando Lolita no filme de Stanley Kubrick

Sue Lyon, interpretando Lolita no filme de Stanley Kubrick

1. Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate do tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta. She was Lo, plain Lo, in the morning, standing four feet ten in one sock. She was Lola in slacks. She was Dolly at school. She was Dolores on the dotted line. But in my arms she was always Lolita.”

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19 Respostas to “Lolita”

  1. Vic 11/09/2010 às 20:13 #

    Hahaha ah lolita, eu sabia!!!!!

  2. Lucas 11/09/2010 às 20:20 #

    Quantas vezes um amor complicado, que faça você odiar a pessoa e numa frase mais tarde gostar dela, é considerado amor mesmo? Só quem viveu isso tem sensibilidade pra compreender, só quem consegue viver a situação de amar uma idéia, conhecer a pessoa da idéia e broxar dela.

  3. Jojoaline 11/09/2010 às 21:17 #

    Belo texto,Luisa!!!Tb admiro bastante este livro e acho que os dois filmes baseados na história ainda devem muito à genialidade de Nabokov.

  4. Júlia 11/09/2010 às 21:27 #

    muuuito bom café! *-*

  5. Íris 11/09/2010 às 21:38 #

    Passei por aqui e foi impossível não ler este post. Adorei a resenha e gostaria de ler o livro um dia. Parece bem interessante.
    Bom trabalho, Luísa 😉

  6. Mayara 11/09/2010 às 22:01 #

    AHUAHUHUA engraçada essa história, me lembra umas coisas..

  7. Marcela Gontijo 11/09/2010 às 22:21 #

    Ontem em alguma divagação, meus pensamentos me levaram a este livro. Lembrei-me do começo que tanto me marcou: “Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.
    Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita. ” É belíssimo. E esse seu maravilhoso texto trouxe ainda mais à tona as lembranças do livro que me foi introduzido por você e que também deixou marcas em minha própria vida. Obrigada, eu acho.

  8. Luisa Lamounier 11/09/2010 às 22:34 #

    🙂 fico muito feliz, cecela.

  9. Matheus Rabelo 12/09/2010 às 2:35 #

    Café introduziu na Cecela… Muito belo isso.

    MWAHAHA. Aliás, belo texto. Nosso blog sempre bomba quando você escreve.

    • Laura Amorim 12/09/2010 às 10:24 #

      Você sabe como juntar palavras pra formar um belo texto =)

  10. Bruna 12/09/2010 às 11:56 #

    Sabia que logo irias escrever um texto sobre Lolita. Tudo acaba se misturando tanto, não? Ah, esse amor de Dolores, Cafézinha!

  11. Vic 12/09/2010 às 12:39 #

    “She was Dolly at school”
    I say.. NOT anymore! hahaha

  12. nathália 12/09/2010 às 12:49 #

    Existe sim minha cara, e qdo acontece é tudo mágico… talvez vc tenha procurado nas pessoas erradas. Mas o amor, acontece…

    • Julia Pardini 14/09/2010 às 21:59 #

      Adoro o seu jeito cigano de escrever por aqui.
      Despertou em mim uma vontade urgente de ler Vladimir Nabokov.
      Ainda acho que, se há nos livros, existe no nosso mundo. Afinal, a inspiração vem de onde?

  13. kate 18/01/2011 às 13:05 #

    Amei o livro, já assisti o filme e realmente achei que não foi muito fiel ao livro, as emoções, a doença que Lolita deixou e Humbert são dolorosos, o livro é tão profundo que vc fica o livro todo em conflito consigo mesmo, não sabe se acha absurdo ou se acha lindo…é complicado.
    Amei o livro, mais se fosse minha filha, eu o mataria e daria uma bela surra nela, ainda bem que foi só ficção, tirada de uma trágica história real.

    • Matheus Rabelo 18/01/2011 às 20:46 #

      A questão da fidelidade é sempre muito delicada, né, Kate. No caso específico do Kubrick (o diretor da adaptação mais antiga) é típica a infidelidade dele aos livros que adaptou ao cinema. O interessante é que alguns dos autores até gostavam das distorções que ele fazia… Hahaha.

  14. Joanna Andrade 20/03/2011 às 0:11 #

    “A imperfeição é encantadora”. Concordo plenamente. Daqui uns dias, é certo de que lerei esse livro, tenho ouvido grandes elogios sobre eles de pessoas muito inteligentes. Adorei o blog, acho que passarei por aqui mais vezes…

    • Matheus Rabelo 20/03/2011 às 12:24 #

      Passe sim, Joana. Será sempre muito bem-vinda.

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