No Balanço do INDIE.10 – Parte 2

13 set

Começando a falar dos filmes aos quais assistimos no INDIE 2010. Assisti a sete, no total, mas comentarei sobre aqueles que o Matheus não viu. Os que vimos juntos, deixo para ele! Minha parte fica, então, com: Orly, Mal dos Trópicos e o Programa 2 de Apichatpong (5 curtas). Vamos lá!

Orly (Idem, França/Alemanha, 2010), de Angela Schanelec

O que o INDIE disse:
Final do inverno. Duas horas no aeroporto parisiense de Orly. Um homem e uma mulher se encontram por acaso. Ele decidiu voltar a morar em Paris, e ela planeja voltar para lá. Uma mulher e seu filho já quase adulto se dirigem para um funeral do ex-marido dela. Um jovem casal está embarcando para sua primeira grande viagem. E uma mulher lê uma carta escrita pelo homem que ela acabou de abandonar. O saguão de embarque é um lugar de trânsito. As pessoas se encontram entre o aqui e o lá, entre o “não ainda” e o “não mais”. Estão todos esperando seu vôo.

O que digo:
Foi uma feliz experiência começar o INDIE 2010 com este filme. Impressionou-me pelo uso inteligente e narrativo dos enquadramentos. Cada plano tinha um propósito definido, sem aleatoriedades. Isso contribuiu para o ritmo da história, a aproximação do espectador com os dilemas dos personagens e, principalmente, a reflexão da situação daquelas pessoas: estranhos no meio de milhares de outros estranhos que, aos poucos, foram se tornando importantes para o público, mas continuavam sendo mais alguns na multidão. A diretora soube mostrar sua habilidade com uma câmera na difícil arte de transmitir uma narrativa, ainda mais sendo essa tão ramificada. Por fim, o que mais me chamou a atenção foi o uso da única música de todo o filme. Quando um homem e uma mulher, desconhecidos entre si e para o público, trocam olhares e uma canção começa a ser reproduzida, o envolvimento dos espectadores é impressionantemente grande. Mesmo que aquela atração seja tão aparentemente superficial, somente saímos do transe quando a música pára. Realmente, Schanelec consegue manipular aqueles que assistem a seu filme, mas uma boa manipulação, que nos faz empáticos a cada um dos personagens. Se um dia estivermos naquele aeroporto, com certeza nos lembraremos daquelas pessoas (só mais alguns estranhos, mas especiais).

Mal dos Trópicos (Sud Pralad, Tailândia/França/Alemanha/Itália), de Apichatpong Weerasethakul

O que o INDIE disse:
Um caso de amor secreto entre o jovem soldado Keng e o garoto interiorano Tong é interrompido com o desaparecimento repentino do menino. A linguagem visual do diretor Apichatpong desvia-se então para o mito e para a alegoria na segunda metade do filme. Segundo as lendas locais, o garoto teria se transformado numa fera selvagem misteriosa que muda continuamente de forma. Com as consequências psicológicas da paixão entre os rapazes transcorrendo no cenário ameaçador da selva tailandesa, Keng se embrenha sozinho no coração da floresta sombria e luxuriante para encontrar o objeto do desejo de seu coração.

O que digo:
Primeira metade do filme: muitos sorrisos sinceros e simples, que provocaram a alegria da platéia, cores vivas e doces, a agitação da cidade, o kitsch do kitsch, quase chegando ao bizarro, o amor inocente entre dois homens, ou melhor, entre um garoto e um homem, ou seja, um romance açucarado, singelo e cativante. Segunda parte: a escuridão, o silêncio, a dor, o frio, a fome, a natureza pura e imponente, o mítico, o estranhamento, o tradicional, as histórias dos mais velhos, a zoomorfização do amante em prol da paixão pelo ser amado, ou seja, duas forças da natureza lutando para ficar juntas. Duas metades de um mesmo amor: totalmente desconexas em uma análise superficial, mas, na realidade, extremamente complementares. O diretor utilizou de elementos da Tailândia atual e da tradição tailandesa para mostrar as duas faces da paixão: uma doce e outra amarga. Mas que, juntas, culminam no amor: essa comunhão plena entre duas almas.

Programa 2 de Apichatpong Weerasethakul, que inclui:
O Hino (The anthem, Tailândia, 2006)
O que o Indie disse:
O Hino representa uma celebração a arte de fazer filmes e da experiência de assistir a eles. Na Tailândia, antes da exibição de qualquer filme, deve haver a execução do hino real, com o objetivo de homenagear o Rei. Esse é um dos rituais arraigados da sociedade tailandesa, que serve para abençoar algo ou alguém antes de determinadas cerimônias. O Hino apresenta um “hino cinematográfico” que glorifica e abençoa a exibição do filme que está por vir. Esse processo de purificação audiovisual é conduzido por três velhas senhoras, que também canalizam energia para a plateia, de modo a clarear as mentes do público.

O que digo:
Meu favorito em todo o festival, justamente por sua simplicidade e beleza, que, de maneira fantástica (no sentido literal), cumpre sua função de glorificar e abençoar o filme a ser exibido em seguida, sensibilizando e atingindo a alma dos espectadores. Linda idéia, carregada de tradição e amor pelo cinema.

Malee e o Garoto (Malee and the boy, Tailândia, 1999)
O que o INDIE disse:
Trata-se de um projeto colaborativo com um garoto de 10 anos que fica encarregado do microfone. O garoto vai para lugares na periferia de Bangcoc para registrar sons para o projeto. O som que aparece no filme indica o rumo tomado pelo menino durante as gravações e evidencia seus pontos de interesse. O diretor fica encarregado das imagens, feitas de modo pouco elaborado nas locações escolhidas pelo garoto. A narrativa do filme, apresentada em textos, foi extraída de uma história em quadrinhos tailandesa disponível nos locais filmados. Esse registro de rostos e lugares pode ser tomado como um diário de uma tarde de passeio por Bangcoc.

O que digo:
Evocando o amadorismo que, na verdade, trata-se da percepção inocente de um garoto de 10 anos, o diretor (Apichatpong ou o menino?) consegue unir, sem pretensões, mas com grande sensibilidade, o universo no qual aquela criança está inserida: um mundo visto, ouvido e pensado por um garoto, que é, ao mesmo tempo, realizador e espectador da obra.

Nokia Short (Idem, Tailândia, 2003)
O que o INDIE disse:
Um corpo em close, imagens eróticas na televisão e um nadador numa piscina representam a contribuição de Apichatpong Weerasethakul para as experiëncias do Nokia Shorts com a qualidade de imagem oferecida pela câmera de um telefone celular.

O que digo:
Um diretor experiente experimentando um novo meio. Interessante experiência.

Esta e mais um milhão de luzes (This and a million more lights, Tailândia, 2003)
O que o INDIE disse:
Uma luz fluorescente piscante perpassa cenas de uma piscina urbana; um garoto desafia a água.

O que digo:
Uma lâmpada, muitas pessoas: um milhão de luzes em um milhão de percepções. Ficou claro?

Casas assombradas (Haunted houses, Tailândia, 2001)
O que o INDIE disse:
O roteiro para o filme foi diretamente retirado de dois episódios de um programa de televisão popular na Tailândia, Tong Prakaisad. O diretor então viajou para aldeias próximas a sua cidade natal e pediu aos habitantes locais para participarem atuando de acordo com o roteiro. Todos os 66 habitantes das seis cidades envolvidas assumiram papéis. O enredo se desenrola de modo contínuo, porém os atores que fazem os personagens mudam constantemente de uma aldeia para outra. Pouco se explora na Tailândia o tremendo impacto produzido pela dramaturgia televisiva no cenário rural e na mentalidade de seus habitantes. O filme focaliza a reprodução e a exploração da narrativa.

O que digo:
Durante todo o filme, imaginei como seria a mesma experiência no Brasil, com novelas como Viver a Vida ou Caminho das Índias e em cidades do interior de Minas. Tenho certeza de que o resultado não seria diferente. Uma idéia brilhante de Apichatpong, que uniu o cômico e o trágico, evidenciando a influência mascarada e venenosa que os meios de comunicação exercem sobre a sociedade. Resignados com sua condição, os habitantes de um povoado encontram nas novelas seus ideais de beleza, riqueza e bom gosto, claramente bizarros quando são colocados em cena. A visão de uma pessoa que sofre com a miséria oferecendo um carrinho de madeira aos pedaços a sua “amante”, dizendo se tratar de uma máquina ao nível de uma Ferrari, pode parecer, inicialmente, engraçado. Porém é, na verdade, deprimente. Um retrato social ácido e genial.

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