Sai ou não sai?

30 set

Hoje, após a leitura de certos textos inspiradores, me deu uma vontade irresistível de escrever uma historieta meio bestinha, bem trivial mesmo. Pari o que transcrevo aqui agora:

Sai ou não sai?

E assim resolveu-se o caso da rapariga que temia profissionais dentários. Rapariga não, que não era portuguesa nem mulher da noite. E resolveu-se, assim no reflexivo, porque a solução não foi procurada (muito pelo contrário, dela fugia-se à ocasião de encontrada a outra), mas veio assim como que presente e castigo divino ao mesmo tempo.

Pois, veja você, que em plena segunda-feira pela manhã, Dona Arlinda repreendia a filha de onze anos e, a julgar pelo volume dos brados, apreciava que também aos ouvidos dos vizinhos chegasse a discussão. Ela evocava a já avançada idade da pequena e a vergonha que era uma moça, assim já com seios, empacar como uma mula frente à necessária ida a um doutor dos dentes. A menina, que ostentava quase imperceptível par de ovos fritos por debaixo da blusa, com a cara enfezada cutucava o dente maldito. Melhor seria se o miserável jamais tivesse brotado em sua boca. Agora, porém, depois de anos assentado ali quietinho, cumprindo até bem suas funções sobre o bife do almoço e sobre o braço do irmão, o dente parecia indeciso sobre continuar ou não habitando aquela região.

– Eu, minha filha, na sua idade arrancava dente mole era com porta! Amarrava uma ponta da linha no bicho e a outra na maçaneta e PUM! fechava e o danado saía era voando! Mas, você, medrosa desse jeito, não quis a porta e eu lhe arranjei dentista. Tudo bem, vá lá, agora me vem recusar o médico também?! Mas é de jeito nenhum que a gente deixa de ir lá hoje! De jeito nenhum!

A intervenção do pai fez-se necessária já que a mãe, de tanto ladrar, quase não mordia. Não mais que dez minutos das austeras e sóbrias palavras do homem da casa e a pequetuxa já preferia passar as férias no dentista a permanecer no escritório do progenitor. Contudo, já na sala de espera do famigerado profissional, ao flagrar o inchaço na fuça do último paciente, lhe acometeram novamente seus pavores odontológicos.

– Mãe, mãe, vamos voltar. Que eu juro, mãe, eu juro que prendo o dente na porta.

Já era tarde demais, percebeu porém, dado o olhar da mãe em resposta. Estavam ali e o dentista abriria a porta a qualquer momento com o avental e as luvas emplastados de sangue para lhe arrastar até a cadeira onde seria presa por enfermeiras canibais.  Além do mais, foi no instante seguinte que lhe chamaram pelo nome e uma pedra de gelo lhe galgou a espinha. O carinho da mãe ao conduzir a filha até a porta do doutor atraiu o olhar dos próximos a serem atendidos e deixou marcas no chão como de pneus brecando. A digníssima senhora abriu logo a porta e tratou de socar-se para dentro junto à filha, que já ameaçava um infarto a despeito do largo sorriso do dentista de cabelos dourados.

Quando sentada na cadeira, a menina parecia já conformada com seu destino e tinha pra si que a morte não poderia ser tão ruim quanto dizia a televisão. Os dedos experientes dentro das luvas lhe abriam com delicadeza a diminuta boca e cutucavam daqui, cutucavam de lá. “É um processo bem simples, na verdade…” dizia o homem, e a infante insistia em prolongar o eco daquelas palavras nas profundezas de sua cabecinha.

– Já está na hora deste dentinho sair sim, lindinha, mas ele parece estar um pouquinho encravado aí dentro. Já tiramos ele daí, você vai ver só. Tudo o que precisamos é de uma pequena anestesiasinha.

Anestesia, no tenro entendimento da garota, era coisa do bem e só fazia melhorar a vida da gente, de modo que aquelas últimas palavras lhe haviam reconfortado como nada mais desde que adentrara o recinto. O doutor virou-se de costas e, ao retornar, porém, empunhava uma seringa cuja agulha devia medir quilômetros. No mesmo segundo a tranquilidade esvaiu o mirrado ser humano sentado na cadeira que, de um pulo, retirou-se de cima do assento num ímpeto de deixar o médico, a mãe e a seringa para trás o mais rápido possível. Objetivo que teria sido atingido se, entretanto, a secretária não tivesse na mesma hora aberto a porta para a qual a menina se dirigia como o diabo correndo da cruz. Um tanto atordoada pela frenada que recebera da porta, a mocinha levantou-se do chão massageando o lado da face. Um olho meio roxo, outro hematoma mais leve ali pela área do queixo e um dente, assim branquíssimo, palpitando na palma da mão.

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9 Respostas to “Sai ou não sai?”

  1. Marcela Gontijo 30/09/2010 às 22:21 #

    HAHAHAHA Que legal! Gostei muito do texto! Na verdade, aprecio muito seu estilo literário. Meus parabéns!

  2. Matheus Rabelo 30/09/2010 às 22:25 #

    Obrigado, Cecela!

  3. Julia Pardini 30/09/2010 às 23:25 #

    “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.”
    Caetano Veloso

    Dói
    a dor de ser menina e de puberdade. Autêntica, somente na menina dói, incomoda-a. Identidade, de quê?
    Incômoda,
    Move a menina, que, anestesiada, não sai da cama.
    Incômodo é a mãe e é o pai, e o médico.
    Sorte da menina.

    Parabéns pela estréia!
    Sua escrita é acolhedora e fotográfica.
    Mais um escritor no Extra Virgem!.

  4. Julia Pardini 30/09/2010 às 23:28 #

    OBS: Sem dor, não haveria de haver história, estória, nem historieta.

  5. Leonardo Barros 01/10/2010 às 1:01 #

    Caio Fernando Abreu já escreveu que a gente tem de escrever coisas belas para que os outros gostem da gente. Ponto.

  6. Loren 01/10/2010 às 15:14 #

    Não conhecia esse seu lado escritor, Matheus. Ler isso me trouxe algumas lembranças… talvez não muito agradáveis. Hahahaha, adorei!

  7. Luisa Lamounier 01/10/2010 às 17:02 #

    Nó, muito bom! Gosto do artifício de dramatização de uma cena aparentemente irrelevante, como tirar um dente, relacionando o psicológico (terror, antecipação, pânico) do personagem e as características açougueiras e cruéis do dentista (as mãos sujas de sangue, a seringa gigante…). Além do mais, eu particularmente morria de medo quando a minha vó ia arrancar o meu dente de leite com fio dental e já estou emocionalmente desequilibrada para a remoção dos meus dentes sisos daqui uns meses ;__;

  8. Sylvia 01/10/2010 às 20:38 #

    Adoro textos que falam de coisas cotidianas e você soube fazer isso muito bem.

  9. Matheus Rabelo 01/10/2010 às 22:33 #

    Brigado, brigado, gente!

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