Enquanto morreu o Mundo

3 out

“Os moçambicanos escolheram o esquecimento. Quem hoje viaja pelo país não sente sinal nenhum dessa guerra. Esse esquecimento é uma sabedoria, uma percepção de que os demônios do passado ainda não foram enterrados. Mas é um falso esquecimento, como quase sempre sucede com os lapsos de memória” M.C.

Saiu mais um livro do Mia Couto (pra quem não sabe aquele escritor moçambicano que sempre vem ao FLIP, lá em Paraty).

Na realidade, eu o comprei há 3 semanas e prometi que voltaria a livraria que sempre compro meus livrinhos pra contar ao vendedor se tinha gostado ou não.

Admito, as primeiras 30 páginas foram arrastadas, não sei se por auto-sabotagem ou porque a leitura estava lenta mesmo. A partir da trigésima e alguma coisa página eu me surpreendi lendo e respirando a nova obra do Mia no ônibus, no cursinho de matemática e até na manicure (o que é bem difícil de fazer, aliás). E, antes mesmo de terminar, tinha a certeza a absoluta que adoraria o livro até o fim, fui lá ao vendedor e dei um grito de trás da porta: não deixa de ler!

Bom, eu terminei a história de Silvestre Vitalício e seus dois filhos, Mwanito e Ntunzi ontem, e o fim com jeito de fim de um pedaço meu bateu tão forte, que nem levantei da cama. Fiquei lá, cobertinha até o meu nariz olhando pro teto amarelo. A África é amarela, eu pensei. O Amarelo Manga do Cláudio Assis, mas também esse amarelo bege, de terra, de mato seco, o amarelo savana, o amarelo envelhecido de criança sem lembrança.

Antes de nascer o Mundo acontece em um canto de Moçambique, apelidado por um dos personagens de Jesusalém (é, de fato, canto onde Jesus se esqueceu de passar, ficou com preguiça, medo ou sei lá).

Silvestre Vitalício é um pai, desacreditado na vida, que deseja privar seus dois filhos da realidade de um país onde a guerra assola e os homens “perderam o sentido de humanidade”, decidindo abandonar a cidade e se isolar de qualquer tipo de civilização, ir para uma região só, inalcançável aos próprios mortos.

A história é uma viagem a essa loucura de auto-esquecimento proposta pelo Pai, a auto-desumanização, onde o culto, o canto, a memória não pode entrar.

Escrito sob forma de realismo fantástico, Mia Couto mistura drama e suspense, fala da dor, da guerra, da memória e da morte, prendendo o leitor, da trigésima página ao fim e, mais uma vez, permite um maior contato com essa África que nós desconhecemos.

Antes de nascer o Mundo foi lançado aqui pela Cia das Letras e custa 44 reais, quem quiser eu empresto-só tem jurar que vai me devolver.

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2 Respostas to “Enquanto morreu o Mundo”

  1. Olho 27/09/2012 às 23:29 #

    Outro aproveitando a “oportunidade” pra “falar mal” ou fazer piadinha de Jesus eim… Lembre-se de que isto pode ser negligente. É a humilde e verdadeira “filosofia do semáforo”.

  2. Olho 27/09/2012 às 23:31 #

    Depois de “falar mal de Jesus” me senti traído e uma perda de tempo lendo o artigo… 😦 Bem, só acho que podia ser diferente, podia ser melhor, podia ser mais positivo 🙂

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