Cointreau

13 nov

Um texto de autoria própria.

Cointreau

Fecho os meus olhos e não me lembro do seu rosto. Não consigo montá-lo. Sei como são as suas feições e como deveria reconhecê-las, mas os fragmentos não se encaixam, num mosaico incompleto. Minha mente não te decifra, não te projeta. Um caleidoscópio que só existe quando te vejo de verdade, quando te toco e beijo. Em todo o resto você é uma sombra, cores se misturando num tom sujo, uma pintura difusa, um nada gigantesco dentro de mim. Uma ilusão. Se durmo, sonho com um você forjado, delineado em linhas exatas, planas – meu inconsciente não faz jus ao seu encanto. Não vejo as olheiras brandas, os pêlos desordenados no seu rosto, um pingo circular e marrom logo ao lado da sua pupila, uma falha só sua, um você todo seu.

Estou doente e há muito tempo, desde que você se apropriou de mim. Ontem chorei noite adentro em uma das minhas cenas teatrais, mas a dor era real. Antiga, marcada dentro de mim. Um sentimento insípido, cúmplice . Fico miúda, me escondo nas crateras entre os azulejos, num abismo escuro como imagino que deva ser o fim. Sem alcance, que alcance eu poderia ter? Meu centro de gravidade me abandonou, não coexiste em mim, perco o equilíbrio e tropeço. Escalo o penhasco, as falésias de um universo minúsculo. Não sou mais minha. Quero ser, me libertar, te renegar por inteiro, mas ando num loop infinito. O mesmo labirinto, instantes repetidos. Não sei mais amar outra pessoa.

Sou uma refém. Esse fluxo inconstante de sentimento me agride, a minha paixão instável. Se primeiro o seu beijo me eleva, suaviza, depois ele me acorrenta, espanca, grito de agonia. Se pela manhã me alegro com o seu riso gostoso, pela tarde só vejo escárnio: à noite, seu dente cerrado vira mandíbula animalesca e me destraçalha. A minha escrita se alimenta desse rombo, mas eu deslizo, me perco, viro paranóia. Não amo mais, não existe mundo para mim. Temo infectá-lo com a minha doença. Talvez seja contagioso. Não arrisco.

Anúncios

7 Respostas to “Cointreau”

  1. Laura Amorim 13/11/2010 às 17:13 #

    Você realmente não devia estar na escola, já tem a qualidade de uma escritora profissional 🙂

  2. Lucas Paiva 13/11/2010 às 17:18 #

    O medo de contágio é irrelevante quando você já está infectada, dá pra ver claramente sintomas ocasionais de expressão de doçura e brilhar dos olhos.

  3. Julia Pardini 13/11/2010 às 17:18 #

    Uau.
    Mais um texto de tirar o fôlego.
    Acho que é o seu melhor.

  4. Marcela Gontijo 13/11/2010 às 17:27 #

    Como havia dito, seus textos sempre me encantam. Sua capacidade de envolver o leitor e seus personagens, de certa forma, obscuros são coisas que invejo profundamente. Espero o dia em que publicarás um livro.

  5. Camila Nascimento 13/11/2010 às 17:42 #

    É um texto como esse que cativa o leitor e estimula um reencontro com seus textos. Parabéns, maravilhoso o texto.

  6. Loren 13/11/2010 às 19:01 #

    O que mais gosto em seus textos é que, por mais pessoais que possam ser, transferimo-nos involuntariamente para dentro deles ao longo da leitura. E é sempre uma viagem surpreendente, um sentimento diferente. Não perca nunca esse dom. Ficou encantador, Café.

    E como disse a Cecela, também aguardo um livro. 😀

  7. Matheus Rabelo 13/11/2010 às 21:22 #

    Escrevendo aqui só pra você saber que li. Não preciso comentar esse talento absurdo, né.

Deixe seu comentário indecente:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: