Só garotos

27 dez

Meu querido Rafael Reis enviou-me sua resenha do livro Só Garotos, autobiografia da roqueira Patti Smith. O texto, além de ser de altíssima qualidade, é bem convincente, afinal não é qualquer resenha que me faz querer ler um livro. Quem ficar curioso, pode ler um trecho do livro disponibilizado pela Folha de São Paulo Online clicando aqui.

Sobre Só Garotos, de Patti Smith

por Rafael Reis

Uma das maiores qualidades de Só Garotos, de Patti Smith, é que o livro oferece vários motivos para ser lido. Se pensado como o relato de uma época, ou de uma geração, ele possui valor histórico semelhante ao clássico On the Road, de Jack Kerouac. A comparação, aliás, não é fortuita e já foi apontada pela crítica. De fato, há alguns pontos interessantes que ligam a obra de Patti Smith à bíblia beatnik, mas são as diferenças que chamam mais atenção. Primeiramente, Só Garotos não é uma obra de grandes deslocamentos; não se trata mais de atravessar os Estados Unidos de leste a oeste, empreendendo uma viagem duplamente espacial (exterior e interior), mas de conquistar uma cidade – Nova York. Do Brooklin ao Hotel Chelsea, do Chelsea ao Max’s ou ao estúdio de Jimmy Hendrix, quase tudo acontece em espaços restritos, sem muito deslocamento. Os próprios beats, na obra, são figuras fantasmagóricas, uma espécie de presença ausente. O mutismo de William Burroughs ou a influência de Allen Ginsberg indicam que, se o movimento beat ainda sobrevivia, como no modo de se vestir da narradora ou no modo de agir de alguns amigos, era mais como um vestígio de um passado recente. Nesse sentido, Só Garotos, se aproximado a On the Road, pode ser lido como uma continuação – o nascimento de uma cena artística pós beat.

Narrativa de formação

Outro motivo que faz de Só Garotos uma obra singular é seu caráter formativo, no sentido do que a crítica literária convencionou chamar de “narrativa de formação”.  A cronologia da narrativa vai do nascimento de Patti Smith e de Robert Mapplelthorpe, em 1946, até a morte deste, em 1989, mas a maior parte vai de 67 – no verão em que acontece o encontro casual, mas definitivo – até 1975 – ano em que o sucesso no mundo das artes já era iminente. Nesse meio tempo, a passagem da adolescência para a vida adulta; a descoberta de si, do outro e da arte associada ao amadurecimento forçado; o amor e a entrega associados à miséria, ao desespero, às separações: dormir em praças, passar fome, prostituir-se, trabalhar em subempregos, fugir de hotéis pela escada de incêndio por falta de dinheiro… Essas são algumas situações vividas nesse período e mostram os sacrifícios que o mundo da arte, muitas vezes, impõe aos que querem se tornar artistas.

Uma história de amor, de devoção

Um dos aspectos mais belos da história de Patti Smith e Mapplethorpe consiste na capacidade da narradora de transformar uma relação afetiva e artística absolutamente profana e pouco convencional num amor quase sacro; sacro porque, a meu ver, sua relação com Robert Mapplethorpe só pode ser compreendida na esfera de uma devoção mútua, que ela normalmente define como “confiança”. Ao menos parece ser esse o sentido da mensagem que precede o prólogo, uma espécie de advertência para o leitor:

Muito já se falou sobre Robert, e outras coisas ainda serão ditas. Os rapazes imitarão seu jeito de andar. As garotas usarão vestidos brancos e chorarão por seus cabelos cacheados. Ele será condenado e adorado. Seus excessos serão malditos e romanceados. Por fim, descobrirão a verdade em seu trabalho, o corpo físico do artista. Isso não se afastará. Os homens não podem julgá-lo. Pois é a Deus que a arte canta, e afinal pertence a ele.

Esse caráter dual ligado à vida e à obra de Mapplethorpe pode ser facilmente confirmado numa rápida busca na internet. Por um lado, a Robert Mapplethorpe Foundation (www.mapplethorpe.org), responsável pela divulgação de sua obra, parece mais voltada para a sacralização da sua arte, exibindo prioritariamente trabalhos de alta qualidade estética e trabalhos associados a uma cena artística “de peso”, com retratos de Patti Smith, Andy Wahrol, dentre outros grandes. Por outro lado, no terreno mais livre da internet, descobrimos a faceta mais polêmica do artista, que escandalizou, e ainda escandaliza, com seus estudos fotográficos das perversões, sobretudo o sadomasoquismo homossexual.

Patti Smith, porém, resolve o problema das contradições por meio de um discurso radicalmente amoroso. Ela consegue sacralizar “o corpo físico do artista”, mostrando que é preciso chegar ao entendimento que “não existe o puro mal nem o puro bem, só a pureza” (p. 180). Podemos, então, falar que também existiria uma pureza sadomasoquista? Lembremos que o desconserto é inerente à arte. Além disso, se a arte canta a Deus, o que podem nossos ouvidos?

Uma grande obra literária

As razões apontadas, por si só, já valeriam a leitura de Só Garotos. No entanto, como relato de uma época, teria sobretudo valor documental; como narrativa de formação, interessaria mais àqueles que aspiram ao incerto mundo da arte; como discurso amoroso ou livro de memórias, interessaria aos que, de alguma maneira, participam do contexto ou com ele se identificam.

Mas Só Garotos é também uma bela obra literária. Escrito como fotogramas que a palavra coloca em movimento – a palavra poética, escolhida e medida com precisão, dizendo somente o necessário. Às vezes, tem-se a impressão que algo ficou por ser dito, que há algo na cena que foi ocultado ou que houve a suspensão momentânea de algo que será esclarecido posteriormente. Mas não seria esse o próprio mecanismo lacunar da memória? Linear cronologicamente e estruturalmente fragmentado, muitos fragmentos possuem uma beleza própria, revelando uma narrativa meticulosamente elaborada. Vejamos um trecho:

Aonde tudo aquilo levaria? O que seria de nós? Essas eram nossas perguntas juvenis, e as respostas juvenis a elas seriam reveladas.

Aquilo nos levou um para o outro. Nós nos tornamos nós mesmos.

Durante algum tempo, Robert me protegeu, depois foi dependente de mim, e depois possessivo. Sua transformação foi a rosa de Genet, e ele foi profundamente dilacerado por seu próprio florescimento. Eu também desejava sentir mais o mundo. Embora esse desejo não passasse de uma vontade de voltar àquele lugar onde nossa luz silenciosa se irradiava de luminárias pendentes com painéis espelhados. Havíamos nos aventurado como crianças de Maeterlinck atrás do pássaro azul e ficamos enredados nos espinhos retorcidos de nossas novas experiências.

Ao final, a angústia diante do fracasso da experiência literária:

Por que não consigo escrever algo que faça despertar os mortos? Essa busca é o que mais arde no fundo.

Esse questionamento já não é o de uma narradora, ou mesmo de uma escritora – é o questionamento de uma amante desesperada diante da inexorabilidade da morte. Que nós, leitores, nos detenhamos aqui com uma convicção: não, não é possível despertar os mortos por meio das palavras. Mas é possível despertar os vivos – e às vezes isso basta.

(Só Garotos, Patti Smith. Companhia das Letras, 2010. Tradução de Alexandre Barbosa de Souza.)


Anúncios

Uma resposta to “Só garotos”

Trackbacks/Pingbacks

  1. Ménage Cultural – Fevereiro/2011 « Extra Virgem! - 16/02/2011

    […] tantas contribuições e tanto incentivo, o Rafael Reis que já teve até um texto publicado aqui no blog ganha, a partir de hoje, uma coluna mensal fixa pra dar dicas de filmes, músicas entre […]

Deixe seu comentário indecente:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: