Dos dois lados do espelho

9 fev

Geladeiras que pulam e participantes de talk-shows que saem da televisão. As visões de Sara Goldfarb em Réquiem Para um Sonho (Requiem for a Dream, 2000) dificilmente são esquecidas por aqueles que assistem ao grande sucesso da carreira de Darren Aronofsky (Pi, Réquiem Para um Sonho, O Lutador). A insanidade e o processo de enlouquecimento são, novamente, alvo do diretor em Cisne Negro (Black Swan), que teve sua estreia nacional neste fim de semana.

Natalie Portman (Star Wars, Closer, V de Vingança) encarna a bailarina Nina Sayers, e o crédito de sua atuação está relacionado aos múltiplos níveis interpretativos dessa difícil personagem. Adulada e infantilizada pela mãe, uma ex-bailarina de rigorosidade velada, Nina leva uma vida dedicada plenamente ao balé dentro do sufocante mundo de uma grande companhia de dança. Uma montagem inovadora de O Lago dos Cisnes de Tchaikovsky é anunciada simultaneamente à aposentadoria obrigada da bailarina principal, Beth (Winona Ryder, como de praxe, dificilmente reconhecível). Assim, é criado um alvoroço entre as dançarinas, todas naturalmente sedentas pelo papel de Rainha Cisne, que pode conferir à escolhida o status de nova musa do balé. Nina, não sendo exceção nesse sentido, tem uma clara vantagem sobre suas colegas, visto que a perfeição empregada em seus movimentos é tudo de que precisa para dar vida ao Cisne Branco. Contudo, a protagonista do balé precisa estar apta também à interpretação da sedutora e maliciosa Cisne Negro, tarefa em que Sayers encontra grande dificuldade, mas que uma nova e excêntrica bailarina (Mila Kunis) parece executar com maestria, a despeito da técnica precária.

Nesse contexto, se desenvolve um jogo de duplos intermediado por espelhos e seus análogos e executado de forma inteligentíssima pela direção de Aronofsky. Acompanhamos claustrofobicamente a personagem de Portman em busca de uma faceta mais audaciosa de si mesma que ela não sabe se existe e que, por vezes, teme encontrar. Sob a forma de novas experiências sexuais, indisciplina e projeções de si mesma sobre a figura de Lily, Nina se deixa levar por trevas que, eventualmente, consomem seu imaginário e trazem alucinações que perturbam o espectador quase tanto quanto a protagonista. Com respeito a tais trevas, vale ressaltar a envolvente fotografia de Matthew Libatique, essencial para que o desequilíbrio psicológico da personagem principal se estenda àqueles diante da tela no cinema.

Como não poderia deixar de ser num filme em que consta um balé, a parte sonora tem grande destaque na produção. Seja pelo design de som que acentua o sobressalto de ver subitamente uma Natalie Portman difusa refletida na janela do metrô, seja pelas composições dissonantes em tons clássicos que sufocam as atmosferas já abafadas. É embalada por uma dessas canções que se dá o que talvez seja a cena mais marcante de todo o longa: o luxurioso e assustador desabrochar do Cisne Negro legítimo. Durante toda a película, em especial nessa cena, os efeitos visuais são incorporados de maneira extremamente orgânica.

Com um desfecho que endossa a simbiose entre as desventuras de Nina e do Cisne, o projeto passou pelos festivais de Veneza, Toronto e, agora, está indicado a cinco estatuetas no Oscar 2011. Cisne Negro não só é capaz de segurar os espectadores na poltrona, mas nos pressiona contra ela durante todos os seus 108 minutos de extensão. Assim, só não se pode dizer que este já seja um dos melhores filmes de 2011 porque, para o resto do mundo, estreou em 2010.

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