O silêncio dos amantes

23 mar

Um dos meus contos preferidos, escrito por Lya Luft.

O silêncio dos amantes

Meu homem dorme ao meu lado. Gosto de acordar no meio da noite e sentir o seu calor, escutar sua respiração. Às vezes, dormindo, ele me apalpa de leve para ter certeza de que estou ali. Ou murmura alguma coisa também no entressono. O nome de outra mulher?

Sorrio no escuro.

Algo se move no jardim em torno da casa. Um anjo prendeu as asas nos galhos baixos; um menino arranhou o joelho num arbusto; pode ser o vento agitando um pano vermelho desbotado, ou o silêncio – que quando é demasiado vira lamento. Então me aconchego mais no corpo dele, e fico abrigada. Esse é o meu lugar no mundo.

Valentim foi um encontro totalmente inesperado. Sozinha há vários anos, estava acomodada numa rotina boa, começando a me curar da ferida que latejou por muito tempo: abandono, traição.

Na cidadezinha abriu-se um novo café, de que todos falavam. Minha primeira saída depois do tempo de reclusão foi quando dois casais de amigos ligaram insistindo, você tem de vir conosco, o lugar é adorável, o dono é um velho conhecido nosso.Era um café bem ao estilo de povoado na serra, muita madeira e grandes janelas dando para um jardim bem cuidado, pinheiros, e mais além os morros. O dono não estava, mas fomos atendidos por quem pensei no começo ser sua mulher – mais tarde saberia que era sua irmã. Uma mulher enérgica, com mãos de camponesa e uns divertidos olhos claros.

Sim, tinham inaugurado o café havia pouco tempo, os negócios iam bem, dentro de alguns meses achavam que teria lucro.

– A senha é a dona? – perguntei.
– Não – ela respondeu -, eu acho meu irmão, somos só nós dois vivos da família.

Não pensei mais no assunto até que um dia o encontrei numa loja de objetos de jardim, e alguém a meu lado comentou o novo café. Cumprimento, breve diálogo, ah, o senhor é o dono do café, e uma até logo amável. Outros encontros, mais visitas ao café, e sem muita demora estávamos namorando.

Valentim era, como eu, sozinho. Eu tinha sido traída por uma pessoa, ele pelo destino. Mas, ao contrário de mim, não conseguia deixar partir de verdade quem se fora.

Eu sabia que era preciso tempo. Cada perda tem sua hora de acabar, cada morto seu prazo de partir, e não depende muito da vontade da gente. Ele não estava curado. A primeira impressão que me deu, naquela loja de objetos de jardinagem, foi: que homem triste. Que olhar bondoso. E pensei, quando rodava no carro para casa: um homem assim eu poderia de novo amar; alguém assim podia me fazer bem, e acho que eu faria bem a ele. Alguém que não iria me trair e me despedaçar. Depois sacudi a cabeça, rindo da minha infantilidade. Ainda não estava curada do velho romantismo?

De um encontro casual e vários outros, combinados, nasceu um apaixonado amor.Os dois queríamos voltar a viver, queríamos nos curar, ele do luto, eu da rejeição. Demorou algum tempo mas ele reaprendeu a rir, e eu voltei a me sentir valorizada. Descobrimos gostos comuns: aquele pianista, aquele maestro, aquela gravação, aquele quadro, aqueles livros, aquele poema que líamos em voz alta.

Lavo a louça na pia diante da janela aberta, de onde enxergo o vulto dele movendo-se no seu ateliê: ele esculpe em uma madeira sedosa ao tato, no grande galpão antigo que transformou e adaptou para isso. Quando não cuida do café com a irmã, ou quando não estamos juntos, cada um lendo em sua poltrona, ou vendo televisão ou ouvindo música sem falar,  Valentim fica nesse estúdio onde de suas mãos e sua fantasia nascem figuras singulares.

Na sua primeira vida, como diz, foi um profissional bem-sucedido, cheio de amigos e mulheres. Só não pensava em casar. Aos quarenta e poucos anos encontrou aquela que o fez baixar a guarda e querer ser feliz. Uma mulher luminosa, ele me diria depois. Casou-se e transformou muita coisa: menos viagens, menos negócios, menos vontade de sucesso. Mudaram seus valores, suas perspectivas se humanizaram. Buscava mais tempo para estar em casa, para curtir a vida. Três anos depois resolveram ter um filho, coisa que antes não passaria pela cabeça dele. Sempre achara que não tinha o menor jeito. E quando a mulher, alegre e tão amada, estava quase no fim da gravidez, a morte, ciumenta, estendeu para fora das longas mangas as garras possessivas.

A jovem grávida entrava em seu carro diante de uma loja onde compara uns últimos objetos para o quatro da criança, uma menina que já tinha nome, clara. “Porque minha vida estava tão iluminada com tudo aquilo.”

Um assaltante a arrancou de dentro do carro e a derrubou no chão. Pegou rapidamente bolsa, relógio e celular da moça caída na calçada, e entrou no carro. As sacolas de compras ficaram no chão ao lado dela. Quando já estava arrancando, sem explicação, sem motivo a não ser a alucinação da droga ou a maldade mais primitiva, inclinou-se um pouco para fora, e disparou. Duas vezes, na barriga volumosa. O bebê explodiu junto com as entranhas da mãe. Naquela hora mataram também a Valentim.

Ele levaria longo tempo para voltar à vida. Bebeu pesadamente por alguns anos. Era como se estivesse se afogando no sangue do corpo da mulher amada e do bebê ainda não nascido, derramado na calçada. Botou fora sua fortuna, fez loucuras, tentou de vários modos se destruir. Recusou ajuda de amigos: queria aquela sua maneira covarde de se matar, como ele mesmo dizia.

Depois, sua natureza no fundo saudável, a memória da felicidade havida, as circunstâncias, o fizeram reviver. Lentamente ele voltava. Era preciso recomeçar uma terceira vez. Aos poucos foi se recompondo minimamente. Abrir o café na cidadezinha da montanha, sugestão de sua única irmã, que morava lá, foi um passo importante. Como deve estar sendo importante no seu processo
de cura esculpir, viver tranquilamente, e de novo amar.

A cicatriz, eu sei, esta ficou, feia e irredutível, no coração do homem que eu amo. Como estão algumas no meu: o casamento com um homem idolatrado, de cujo amor nunca duvidei, cuja fidelidade me parecia tão natural quanto a minha. Com quem eu pensava ter filhos, envelhecer, morrer. Num dia, sem qualquer sinal que eu percebesse, ele me levou para jantar, e mal começamos a comer anunciou o motivo daquela celebração: queria se separar. Estava havia meses com outra mulher, estava apaixonado, eu era boa demais, não merecia aquilo. E a vida dupla começou a lhe fazer mal. As palavras mais convencionais, ridiculamente comuns, eram, uma a uma, punhais rasgando o cenário da minha vida e envenenando os bastidores.

Se o teto do restaurante desabasse eu não teria ficado mais chocada. Por vários meses pensei que ia morrer de dor, oscilando entre humilhação e ódio. Levei muito tempo para sair à rua, ver amigos, voltar a trabalhar, viajar. Imaginava meu marido chegando em casa, entrando na nossa cama, recém-saído dos braços da outra mulher. Imaginava-o  dizendo e fazendo com ela as mesmas coisas que me levavam ao delírio. Muito devagar, consegui retomar minha vida,  durante um divórcio hostil de parte a parte. Rejeitada, eu o quis machucar de todas as maneiras possíveis, e me vingar, mesmo sabendo que era apenas patético. Muito me envergonhei disso mais tarde, e acabamos numa relação pelo menos cortês.

Minhas feridas quase fechadas me ajudam a entender que Valentim convalesce das suas. Talvez leve o resto da vida para se recuperar. Sua melancolia, que por vezes me impacienta, na verdade não o distancia de mim, como não nos separam seus silêncios. É difícil, porque não sei fingir que não vejo ou não me importo quando ele se fecha mais, mas vou aprendendo que é apenas natural, e percebo que está cada vez um pouco melhor. Estou me permitindo alegria, estou aprendendo a ser feliz outra vez, ele diz. Sei que vai superar a morte para poder se abrir para a vida. Está começando a lembrar com menos sofrimento. Talvez consiga esquecer.

Mas a moça morta com seu ventre grande não esquece. Ronda esta casa que agora é nossa no lusco-fusco da madrugada ou do anoitecer, e às vezes eu vislumbro o vermelho pálido de um vestido nos arbustos atrás da árvore grande. Percebo seus olhos melancólicos e desesperados, atrás da vidraça, vejo que se esgueira no fundo do corredor, uma rápida aparição que não amedronta. Será ilusão, será reflexo de alguma luz, será ela? O que está buscando ou querendo mostrar? Não tive coragem de falar com Valentim
a respeito, mas um dia perguntei a cor da roupa que ela usava quando foi morta. Ele pensou um pouco, o esforço de recordar o perturbava visivelmente. Depois disse:

– Não lembro. Foi tudo tão horrível que lembro de poucos detalhes. – Olhou para o lado, respirou fundo, e disse: – São coisas que precisei esquecer. – E corrigiu: – Eu quero esquecer.

Arrumando seu armário, encontrei pouco depois uma caixa fechada com um elástico. Como ele não tinha pedido segredo de nada, abri pensando que haveria retratos. Eu nunca tinha visto um retrato de Valentim menino, ou rapaz, ou da sua mulher perdida. Eram recortes de jornal, poucos e amarelados. Notícias do assassinato de uma jovem grávida de sete meses. Uma foto dela. O nome, nome de flor. Uma participação de falecimento. Várias notícias policiais. Nunca pegaram o monstro assassino. Em uma foto de jornal num colorido desbotado, via-se entre as pernas dos transeuntes consternados a moça caída na calçada, com vestido vermelho.

Mais uma vez não falei nada. Já houve dor em demasia. Não tem importância que a mulher morta venha, que espie tristemente pela janela ou se esconda entre as árvores. Talvez espreite a felicidade do homem amado com outra mulher, e sofra. Ou sente-se apaziguada vendo que ele, ao menos, voltou à vida. Será que aparece junto dele no ateliê para ver se esculpe uma figura feminina de ventre abaulado? Será que o acaricia com a mão gelada, e lhe mostra a barriga onde um bebê fantasma quer o amor de seu pai?

Ou ela pensa que somos o seu sonho?

Acho que Valentim sabe dessas aparições, sabe que as vejo, e fica agradecido porque não comento nada. Quando ele está mais triste, até sombrio, pergunto o que tem e ele responde: “Nada”. Sorri meio distante.

A moça grávida aparece cada vez menos. Está ficando translúcida, quase, também ela, um velho retrato desbotado. Não me faz mal. Não quer me perturbar. Há de estar se acostumando à sua nova condição. Mesmo se ela desaparecer por completo, nunca vou indagar a Valentim se ela o visitava no ateliê. Não preciso saber. Entre todos os amantes há zonas de segredo necessárias, que também podem unir. Invadidas, talvez provocassem inúteis sofrimentos. Leva tempo aceitar isso sem mágoas.

Acordo com Valentim a meu lado. Passo de leve a mão em seu rosto adormecido, acompanho com o dedo o contorno de sua buca, beijo seu ombro e me aconchego mais nele: aqui é o meu lugar no mundo. E o dele também. Do nosso jeito, estamos construindo – mais uma vez – a vida.

A dor faz parte.

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2 Respostas to “O silêncio dos amantes”

  1. Alexandre Maia 23/03/2011 às 16:53 #

    Obrigado, Luisa, por este belíssimo conto!
    Encorajou-me até a ler mais de Lya Luft… muito obrigado!

  2. Amélia Barbosa 24/03/2011 às 12:38 #

    Amei a história “SILÊNCIO DOS AMANTES ” PARABENS.

    GIRASSOL.

    Bem girando girassol,

    Como lindo cata-vento,

    Gira em círculo e caracol,

    Torna-se acontecimento.

    Gira acompanhando o sol,

    Que brilha no firmamento,

    Reverencia o arrebol,

    Em gracioso movimento.

    Este esplendor amarelo,

    Purifica os sentimentos,

    Seu círculo um paralelo,

    De idéias e pensamentos.

    Perfeita mãe natureza,

    Traz luz e conhecimento,

    Flores de imensa beleza,

    Afloram meus sentimentos.

    Neste amarelo profundo,

    Meu olhar a se perder,

    Nem maior amor do mundo,

    Vai me fazer lhe esquecer.

    Amélia Barbosa 22/03/2011

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