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Lirismos de Quinta – 25/10/2012

25 out

Um poema de tirar o fôlego pra gente que tá apaixonado, do Ricardo Domeneck.

Entre o Fogo e a Derme

Como quem sopra
a própria pele antes
para você queimar
melhor, mais
eficaz. Com você,
os pontos da sutura
são auxílio ao corte.
Deito e observo
o prazer com que
você me desinfecta
para proteger,
contra minha tez,
os seus insetos.
Eis-me aqui,
querido, todo pós-
utópico depois
que você confunde
pela centésima vez
sulco e charrua
durante o sexo
ou seu exagero
em buscar no dicionário
antes de me tocar
a etimologia de palavras
como amortecimento.
Quando você fala,
arreganho os ouvidos
e olvidos e Ovídios
e respondo
à attention span
de peixe dourado
que você me dedica
em nossa vida de aquário.
Sei que devo soar,
aos seus ouvidos,
como um conjunto
de erratas e spam.
Resigno-me
como inseto extinto
preso em sua resina.
Os amigos sugerem
que eu deixe o cronômetro
vir coser os lábios
da ferida, enquanto
você seleciona
em random mode
por trilha-sonora
o sonzim dos meus ossos
que engranzam
sob o seu corpo.
Silêncio não
é costureira,
nem na Espanha
onde talvez haja
alguma que atenda
por Martírio ou Remédios,
como numa peça qualquer
de Lorca ou outra louca.
Sinto-me como uma Orca
justiceira ou uma Scarlett O´Hara
sem Tara.
Resta-me a esperança
que arqueólogos futuros
me descubram, soterrado,
fossilizado, esquecido
sob as suas vírgulas.
Hei de voltar, como um vírus
trancafiado nas tumbas
de Tutancâmon ou outra múmia,
devastarei paisagens e populações
à procura dos seus pulmões.

Publicado originalmente na página mensal de poesia contemporânea do caderno Prosa & Verso, do jornal O Globo, a 15 de janeiro de 2011.

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Lirismos de finge que ainda é quinta – 19/10/2012

19 out

Fim e Começo – Wislawa Szymborska
Depois de cada guerra
alguém tem que fazer a faxina.
Colocar uma certa ordem
que afinal não se faz sozinha.

Alguém tem que jogar o entulho
para o lado da estrada
para que possam passar
os carros carregando os corpos.

Alguém tem que se atolar
no lodo e nas cinzas
em molas de sofás
em cacos de vidro
e em trapos ensanguentados.

Alguém tem que arrastar a viga
para apoiar a parede,
pôr a porta nos caixilhos,
envidraçar a janela.

A cena não rende foto
e leva anos.
E todas as câmeras já debandaram
para outra guerra.

As pontes têm que ser refeitas,
e também as estações.
De tanto arregaçá-las
as mangas ficarão em farrapos.

Alguém de vassoura na mão
ainda recorda como foi.
Alguém escuta
meneando a cabeça que se safou.
Mas ao seu redor
já começam a rondar
os que acham tudo muito chato.

Às vezes alguém desenterra
de sob um arbusto
velhos argumentos enferrujados
e os arrasta para o lixão.

Os que sabiam
o que aqui se passou
devem dar lugar àqueles
que pouco sabem.
Ou menos que pouco.
E por fim nada mais que nada.

Na relva que cobriu
as causas e os efeitos
alguém deve se deitar
com um capim entre os dentes
e namorar as nuvens.

Do livro: Wislawa Szymborska [poemas] Companhia das Letras. Tradução de Regina Przybycien

Lirismos de Quinta – 11/10/2012

11 out

“Tô Só”, crônica de Hilda Hilst mostrando que nem só de poesia se faz poesia.

Tô Só

Vamo brincá de ficá bestando e fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar nos Alpes Suíços e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando? Vamo brincá que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num festival de povão e dotô? Vamo brincá que a peste passô, que o HIV foi bombardeado com beagacês, e que tá todo mundo de novo namorando? Vamo brincá de morrê, porque a gente não morre mais e tamo sentindo saudade até de adoecê? E há escola e comida pra todos e há dentes na boca das gentes e dentes a mais, até nos pentes? E que os humanos não comem mais os animais, e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás? E que a alma é de uma terceira matéria, uma quântica quimera, e alguém lá no céu descobriu que a gente não vai mais pro beleléu? E que não há mais carros, só asas e barcos, e que a poesia viceja e grassa como grama (como diz o abade), e é porreta ser poeta no Planeta? Vamo brincá

de teta
de azul
de berimbau
de doutora em letras?

E de luar? Que é aquilo de vestir um véu todo irisado e rodar, rodar…
Vamo brincá de pinel? Que é isso de ficá loco e cortá a garganta dos otro?
Vamo brincá de ninho? E de poesia de amor?

nave
ave
moinho
e tudo mais serei
para que seja leve
meu passo
em vosso caminho.*

Vamo brincá de autista? Que é isso de se fechá no mundão de gente e nunca mais ser cronista? Bom-dia, leitor. Tô brincando de ilha.

Fontes:
* Trovas de muito amor para um amado senhor – SP: Anhambi, 1959

Viagem a Tulum – Fellini, Castaneda, Manara e Jodorowsky

9 out

Lendo “Conversando com Carlos Castaneda”, antropólogo que publicou uma série de livros narrando sua formação em xamanismo por Don Juan Matus, o xamã Yaqui com quem Castaneda teve uma aprendizagem de dez anos a partir de 1960, descobri que ele não só era amigo de Federico Fellini como o cineasta declarou, em 1985, o desejo de fazer um filme baseado na saga de Don Juan. Castaneda ficou de ir ao México acompanhá-lo, mas infelizmente mudou de ideia. Fellini foi ao México com sua equipe e, dessa experiência, surgiu a ideia do roteiro para uma história em quadrinhos que  me deixou em êxtase ao fazer um combo de três das minhas pessoas preferidas: com ilustrações de ninguém menos que Milo Manara, roteiro de Fellini e participação do cineasta Alejandro Jodorowsky (como personagem), Viagem a Tulum cria um ambiente onírico, surreal e deliciosamente fascinante.

“Tínhamos um acordo implícito: ele era o cineasta, e eu era seu “câmera”, diz Manara que não foi à cidade, mas contou com a incível memória fotográfica de Fellini e suas descrições detalhadas. lguns momentos da feitura dessa autêntica novela gráfica. O resultado final é admirável: em clima felliniano (e com sacanagens manarianas), entre a magia e o deslumbramento gráfico-sequencial, os dois personagens principais (um senhor e uma jovem) visitam uma lendária Cinecittá, à procura do próprio Fellini, e nela encontram algumas figuras de suas obras, vivenciadas por Giulitetta Masina, Anita Ekberg, além de Marcello Mastroianni.

E parece que essa aventura do cineasta vai ser realmente levada ao cinema em duas ficções: “Soñado Tulum”, em processo de pós produção e que foi dirigido pela mexicana Tiahoga Ruge e “Viaje a Tulum”, que está sendo filmado desde 2011 e é dirigido por Marco Bartoccioni.

Ah, e tem ilustrações do Fellini também.

Pra baixar, clique aqui 

Fotos – Movimento Gay Mundo Afora

5 out

Eventos de celebração e protesto LGBT (cada dia eles colocam mais T’s nessa sigla, então nunca sei quantos têm, alô Leonardo) coloriram e seguem colorindo as ruas de várias partes do mundo esse ano. Paradas foram recebidas com violência e intimidação na Rússia, Geórgia e Albania enquanto outros lugares viram bonitas festas na busca do direito à diversidade.  Três milhões de pessoas celebraram nas ruas de São Paulo, considerada a maior Parada Gay do mundo. Ativistas da Uganda e do Chile solicitaram mudanças nas leis, enquanto nos Estados Unidos Obama se tornou o primeiro presidente americano a apoiar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O Extra Virgem fez uma seleção de fotos de eventos relacionados aos direitos homossexuais, Paradas Gays e ao Dia Contra a Homofobia e Transfobia. Sim, são muitas, mas vale a pena clicar, expandí-las e constatar, junto com a gente, que são fotos lindas de um movimento lindo.

Lirismos de Quinta – 04/10/2012

4 out

BLUES

Como levar alguém que vai morrer

pra ver o sol nascer

como se fosse a primeira vez

Como um garoto cruzando o Atlântico num barco a vela

Como uma jovem mãe que perde o filho

no parque de diversões

Tipo esses filmes ruins que me fazem chorar

como um idiota que perdeu a paz

Como o garoto solitário

que entra de penetra na festa de aniversário

Como o filho cobrindo os pés do pai

à beira da morte

Como o viciado contando os dias

que permanece limpo

Como alguém que desistiu de ver o pôr-do-sol

Como alguém fechando a tampa do piano

Como alguém que você espera

entrando pela porta

Como alguém que você sempre esperou

e que nunca vai entrar

Como aquela mulher que não vai voltar

Como aquelas desavenças que nunca deixamos pra lá

Como aquelas coisas que julgávamos indispensáveis

e que depois de muitos anos

encontramos no vão do sofá.

 

Mario Bortolotto,

Dramaturgo bem foda que tem até uma banda de blues:

O Surrealismo de Emil Alzamora

4 out

“A forma humana é uma constante dentro de meu trabalho. Estou interessado em explorar o que significa habitar um, geralmente exagerando ou distorcendo diferentes aspectos da forma para revelar uma situação emocional ou física, ou contar uma história. Limitação e potencial são tão humanos quanto a carne e tão difíceis quanto tangíveis. Em meu trabalho eu luto para fazer visível essa interação.”

Toxiconomist, 2008.

Afterlife Afterthought, 2005.

Nascido em 75, no Peru, começou sua carreira de escultor em 98 e desde então faz de materiais como bronze, gesso, alumínio e mármore uma arte contemporânea ímpar combinando o idealismo grego do corpo jovem com a proposta surrealista.

Haze, 2008.

Suas obras desafiam nossas concepções sobre o corpo humano ao combinar o belo e o grotesco, suas esculturas se contorcem no espaço, parecendo desafiar a gravidade enquanto seus membros se ampliam e comportam-se além dos limites naturais.

Masochist, 2004.