Arquivo | Entre Quatro Paredes RSS feed for this section

Gregório Reis Entre Quatro Paredes

16 maio

EV! entrevista o publicitário de moda, modelo e designer Greg Reis

A equipe do EV! entrevistou o jovem Greg Reis, que conhecemos depois de assistir a uma palestra dele sobre publicidade de moda. Gregório é formado em Publicidade e Propaganda pela PUC Minas, mestrado pela NABA (Nuova Accademia di Belle Arti) e possui um portfólio cheio de projeto bacanas – que contém, inclusive, uma campanha para a grife Diesel. Além das campanhas de moda, ele acaba de lançar a grife de acessórios Beth, God save the Queen, que é descrita como uma grife de “acessórios para a realeza”. Confira abaixo o que descobrimos sobre Greg entre quatro paredes. E quem quiser, pode conhecer outros trabalhos dele clicando aqui.

Apresentação da campanha de moda para Diesel e Diesel Black Gold no SS/2010 da fashion week em Milão

Quais as principais diferenças entre publicidade de moda e a publicidade “normal”?

A publicidade como a conhecemos hoje é fruto do sistema moda. A característica de o que alguns chamam de “sociedade-moda” ou sociedade contemporânea de adorar o inconstante e a mudança nonstop possibilita e intensifica a existência da publicidade. Então as duas (publicidade e moda) são bastante interligadas.
Na prática, a publicidade feita para o setor moda é notoriamente mais carregada de vanguardismos. Existe uma pressão maior e uma expectativa mais pesada sobre a moda de se mostrar completamente nova. Se espera mais inovação no discurso de uma marca de vestuário do que uma sabão em pó, por exemplo.

Design de website para o músico Ian Hockley. Muscat, Oman - 2010

Quais conceitos transmitidos pelas propagandas de moda você considera prejudiciais ao público, e quais os positivos?

Eu acredito que essa seja uma questão bem relativa. Quais temas tratados no cinema seriam prejudiciais ao público? Eu acredito que os limites entre publicidade e entretenimento se encurtam cada vez mais… Respondendo: não acho que existam temas prejudiciais. Acho que existam boas e más propagandas.

Quais estratégias são utilizadas hoje em dia para chamar a atenção do público de moda que não eram utilizadas antigamente?

Os mesmos que a publicidade em geral começam a usar: mais recursos na internet, que se espalham por conexões em celulares, i-pods e etc., guerrilla e outras ferramentas de marketing que evoluem sempre para tornar a propaganda mais calorosa e mais humana, mais próxima do indivíduo que a recebe. No caso específico da moda ressalto o audio-visual como alternativa recente. O vídeo serve bem à moda, ressalta detalhes técnicos do produto (texturas, costuras, shapes…), transmite conceitos complexos com eficácia e hoje pode atingir uma quantidade incrível de pessoas, em pouco tempo e a um baixo custo.

Existe uma discussão de que, hoje em dia, as pessoas estão mais bem informadas e críticas em relação à informação e isso acontece também na propaganda. Como isso pode ser usado para a criação de campanhas, em especial no  aspecto da moda, ainda mais eficientes?

As pessoas querem se divertir. Citei antes sobre publicidade e entretenimento se tornarem cada vez mais próximos. Acredito que as pessoas estejam mais céticas e, portanto, mais abertas à ironia. Hoje a publicidade de sucesso é aquela que conta a historinha mais divertida e inteligente. É a publicidade que cria um mundo ao entorno do produto, que seduz pela criação de um imaginário próximo ao imaginário literário ou cinematográfico e utiliza um bom mix de estratégias digitais e também no mundo real. No caso da moda não é diferente.

Quais os principais diferenças entre fashion films para coleções prêt-à-porter e coleções de alta costura?

Fashion films ainda estão tomando forma. Mas o que podemos detectar é que alguns são mais próximos da linguagem publicitária (o caso dos fashion films criados para coleções prêt-à-porter) e outros que são mais próximos do cinema ou da video-arte (mecado de luxo).
Hoje as grandes marcas de alta costura produzem também coleções pret-a-porter e utilizam um discurso único de comunicação (aquela história de criar uma fábula onde a marca é personagem principal). O mercado de luxo utiliza essa sedução principalmente para vender os produtos mais baratos. Marcas de luxo fazem grana vendendo perfumes para quem não consegue comprar os vestidos… tipo. Então no fim das contas a divisão entre fashion films não acontece tanto entre prêt-à-porter x alta costura, mas no público alvo das marcas.

Festa de lançamento do website de moda http://www.thepineapple.com.br. O site é produzido por Natalia Assis e Maíra Sette, em BH, Brasil

O que vê como tendências de temáticas e meios de divulgação para futuro da publicidade de moda?

A pura e mais completa mistura de tudo. No rules!

Como a internet e, em especial, as redes sociais podem auxiliar na vendagem de moda?

Como já disse antes a internet quase põe em discussão a existência dos desfiles. Hoje o vídeo atende muito bem. No caso das redes sociais eu acredito que sejam de extrema importância. A moda vive de emulação, de “quem faz o que”, “onde está?” “o que veste?” “o que tem?”… e o Facebook não é exatamente isso?

Algumas pessoas envolvidas com publicidade não a consideram arte, outras sim. Você considera a publicidade, e em especial a de moda, uma arte?

Posso considerar. Mas isso da pano pra mais um século de manga! (pra ficar no tema “moda”)

O que você entende por moda?

Eu fico com a teoria sempre: a moda foi criada ou estabilizada com a modernidade. Moda é o amor pelo novo, pelo diferente, pela inovação. É um sistema cultural que influencia os processos produtivos e estimula a continuidade de criações de novidades. Na prática, pra mim, é a forma mais democrática de expressão da individualidade.

Quais os artistas de dentro do mundo da moda (estilistas, fotógrafos de moda, editores de moda, film makers, etc.), e quais os de outras artes (pintores, escultores, fotógrafos, diretores de cinema, vídeo artistas, escritores, etc.),” que influenciam seu trabalho?

Difícil. Por muito tempo fiquei com Mondigliani me assombrando. Adoro Miró e acho que consigo encaixar sua estética em qualquer publicidade se eu quiser. Tiro muitas referências da literatura.. Primo Levi é um dos autores que já inspiraram peças e campanhas. Na moda prefiro não olhar pra dentro do setor para criar comunicação mas exatamente fugir dos vícios. Gosto de olhar pra arte contemporânea mas também pra vida cotidiana, objetos aparentemente não interessantes… Na realidade eu sou meio kitsch! 🙂 ♥

Em quais outros setores da moda você atua além da publicidade?

Já desempenhei vários papéis. Fui modelo em Hong-Kong para a Wrangler e na mesma semana produtor de moda pra Adidas. Trabalhei como diretor de arte e modelo para o mesmo desfile em Milão. Desenvolvo junto com uma amiga uma linha de acessórios que está super legal. Gosto e me interesso por moda mas a é a minha experiência com comunicação e arte que me permite atuar bem dentro dela. O negócio de ser modelo é que não estava previsto! 🙂

Qual sua opinião sobre o atual boom dos blogs de moda?

Existem muitos, mas poucos falam bem. Aí é que é a hora dos jornalistas formados em cursos superiores mostrarem pra que vieram. Acho ótimo que todos podem falar e a multiplicidade de vozes é uma oportunidade de troca e criação muito importante. Mas todos sentimos falta de informações profissionalmente trabalhadas e oferecidas com qualidade… Todo mundo quer falar pra se sentir “in”… Falar de moda tá na moda. Mas é um mundo bem complexo que exige atualização constante e nem todo mundo tem tempo, disposição ou talento pra isso. Na realidade, blog de moda com qualidade são poucos. Por isso acho que a curva desse boom vai dar uma invertida boa em breve.

Gregório, em trabalho como modelo

Gregório, em trabalho como modelo

 

Como sua experiência como modelo influencia na sua carreira de publicitário de moda?

Eu gosto de ter a idéia do processo em 360 graus. Quando sou o diretor criativo de uma campanha sei que posso me colocar no lugar das pessoas envolvidas no processo com propriedade porque já estive no lugar delas. Não descarto a idéia de pensar no modelo quando produzo uma campanha publicitária pra moda. Acho que isso é fundamental e positivo para o processo.

Você acabou de lançar uma grife de acessórios, a Beth, God Save The Queen. Conte-nos mais sobre esse projeto.

A Beth é uma brincadeira que deu certo. Eu e Bruna Foureaux somos sócios e amigos de infância. Nos chamamos “príncipe” e “princesa” no dia a dia, como amigos e brincalhões que somos. A Betj foi uma consequência de nossos percursos profissionais e a nossa vontade de fazermos algo juntos. Deu certo porque nos completamos como pessoas e profissionais. Hoje outras pessoas queridas para nós estão envolvidas no processo. A idéia é exatamente envolver o nosso círculo pessoal, imprimir a nossa identidade no produto. É uma marca que produz acessórios belos, mas ambientalmente corretos, com uma identidade forte e um publico determinado, porque nós, como pessoas, somos assim. E isso é extremamente satisfatório.

Maria Raquel entre quatro paredes

11 nov

EV! entrevista a artista mineira que grafita cupcakes pelas ruas da capital

Começa a semana e as escolas se enchem novamente de alunos desejosos de aprendizado (hehe), mesmo após o exaustivo Exame Nacional do Ensino Médio. Em um colégio específico da capital mineira, entra na sala de aula a professora de português Maria Raquel, 24 anos,  que, entre um dia de aula e outro… grafita. Quem diria? Os alunos da moça, formada em Letras pela UFMG, provavelmente não.

O leitor que mora em Belo Horizonte já deve ter notado alguns bolinhos bastante expressivos espalhados pelo cenário urbano local. Esses cupcakes, marca registrada (literalmente) da Maria Raquel conferem uma boa dose de cor e vida a alguns dos muros e portões mais sujos da metrópole. Essa delicada dose de humor tempera o dia das centenas de transeuntes que passam pelas pinturas da artista todos os dias. O EV! a convidou, portanto, para participar de um pequeno interrogatório Entre Quatro Paredes, nome da nossa nova coluna de entrevistas. Quem melhor para nos contar seus segredos do que alguém cuja expressão artística é, de certa forma, clandestina?

Por que escolheu o graffiti como forma de expressão?

Meu interesse pelo graffiti surgiu desde que me mudei (de Itabira) para BH. Eu ficava dentro do ônibus no caminho da minha casa até a faculdade quase 2h e ia observando a cidade para me distrair. Passar pelo que era a Avenida Antônio Carlos antes da reforma e não prestar atenção nos graffitis era quase impossível pois, no meio de tanto cinza, quando se vê um desenho colorido, ele chama muita atenção. Todo dia, novos graffitis surgiam, todo dia, vários outros sumiam e eu ficava de olho em tudo que acontecia na cidade. Como todo mundo que começa a pintar, eu queria ver na rua alguma coisa que fosse minha. Quando você pinta alguma coisa na rua, você deixa um pedaço seu ali pra ser compartilhado com todo mundo. Eu queria passar por um lugar e pensar que ali tinha um pouco de mim, do mesmo jeito que alguém que gosta de um graffiti passa por aquele lugar e sente que ali tem um pouco dele também.

Por que bolinhos? Eles ficam só nos muros ou aparecem também na sua cozinha?

Eu escolhi fazer um bolinho, primeiro porque eu sou louca com comida, e, provavelmente, se eu não fizesse um bolinho eu faria qualquer outra coisa de comer. Eu adoro cozinhar e fazer bolos e doces, então os bolinhos saíram da minha cozinha direto pro muro. Segundo, porque eu gostaria de pintar algo que pudesse chamar a atenção de todo tipo de gente. Existem alguns tipos de graffiti que são feitos somente para quem gosta de graffiti. Já, pelo contrário, a minha intenção era fazer algo que chamasse a atenção de qualquer pessoa. Por isso escolhi um desenho simples e bastante colorido.

Como desenvolveu a técnica?

Apesar de gostar de graffiti, eu tinha pouco contato com pessoas que pintavam e imaginava que fosse muito difícil de fazer. Eu nunca tinha estudado desenho e nem tinha um dom natural, desse modo, não me achava muito capaz de criar nada. Mas minha vontade de pintar era tão grande que comecei a desenhar, criei meu personagem, e treinei bastante até me sentir segura para pintar na parede.  Além disso, nesse tempo conheci a kamikaze crew, eles já pintavam havia algum tempo e me ajudaram bastante.

Já teve algum problema com a polícia, transeuntes ou moradores locais por causa dos seus desenhos?

Eu moro atualmente em BH e em Itabira, então meus bolinhos estão espalhados nessas duas cidades. Itabira é uma cidade pequena, desse modo, a maioria das pessoas ainda tem certa dificuldade para entender o graffiti. Alguns acham que é vandalismo e, se me vêm pintando, chamam a polícia e implicam. Outros já acham que alguém me pagou para fazer aquilo, não entendem que eu posso escolher um lugar para pintar só porque eu gosto de fazer aquilo.

Mas já tive alguns problemas pintando em BH. Quando você está na rua, tem de estar disposto a tudo: as pessoas que te veem pintando têm sempre alguma reação e sempre passam gritando, xingando ou elogiando. A polícia já apareceu algumas vezes, já tive que parar alguns bolinhos pela metade porque o dono do local apareceu e uma velhinha já quase me bateu. Mas a diversão de pintar está nessas coisas, toda vez que saio para pintar volto cheia de história pra contar.

Seus graffitis estão espalhados por vários pontos da cidade. Você tem algum critério para a escolha do local?

Eu gosto de escolher lugares mais sujos e bem destruídos pra pintar. Eu sou fascinada com lugares abandonados, cheios de lixo, cartazes, pichação e acho que o graffiti consegue trazer um pouco mais de vida e cor para esses lugares. Eu acho que o graffiti se faz não só pelo desenho em si, mas pela composição do desenho com o lugar em que ele foi pintado. Assim, quando eu vou escolher um lugar para pintar, eu penso em como vai ficar a foto depois e tento pintar de uma forma que o desenho se encaixe da melhor forma possível naquele lugar.

Tem algum favorito? Algum que tenha sido muito difícil de fazer?

É difícil escolher só um favorito, mas os que eu mais gosto são os grandões [como os abaixo]. Eles são bem mais difíceis de fazer, eu me sujo inteira, morro de dor no braço pelo resto da semana, contudo o resultado vale muito a pena! Eu sinto uma satisfação muito grande quando acabo de pintar!

Quais são suas influências?

Uma das minhas maiores influências artísticas é o Keith Haring. Eu gosto de artistas que seguem esse estilo com cores bem fortes e desenhos e formas bem simples. Me impressiona como desenhos bobos e até mesmo infantis podem ser capazes de encantar e passar uma mensagem tão forte.

Keith Haring e as cores que inspiram Maria Raquel

No graffiti, meus artistas prediletos são o GR17O e o ARYZ. Os dois seguem uma linha parecida, pois fazem graffitis bem grandes, ricos em detalhes, mas de uma forma que consegue manter a simplicidade dos desenhos. No Brasil eu gosto muito da Minhau e do Ise. Ambos são de SP, que, eu acho, pode ser considerado o pólo do graffiti no Brasil.