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Lirismos de Quinta – 11/10/2012

11 out

“Tô Só”, crônica de Hilda Hilst mostrando que nem só de poesia se faz poesia.

Tô Só

Vamo brincá de ficá bestando e fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar nos Alpes Suíços e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando? Vamo brincá que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num festival de povão e dotô? Vamo brincá que a peste passô, que o HIV foi bombardeado com beagacês, e que tá todo mundo de novo namorando? Vamo brincá de morrê, porque a gente não morre mais e tamo sentindo saudade até de adoecê? E há escola e comida pra todos e há dentes na boca das gentes e dentes a mais, até nos pentes? E que os humanos não comem mais os animais, e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás? E que a alma é de uma terceira matéria, uma quântica quimera, e alguém lá no céu descobriu que a gente não vai mais pro beleléu? E que não há mais carros, só asas e barcos, e que a poesia viceja e grassa como grama (como diz o abade), e é porreta ser poeta no Planeta? Vamo brincá

de teta
de azul
de berimbau
de doutora em letras?

E de luar? Que é aquilo de vestir um véu todo irisado e rodar, rodar…
Vamo brincá de pinel? Que é isso de ficá loco e cortá a garganta dos otro?
Vamo brincá de ninho? E de poesia de amor?

nave
ave
moinho
e tudo mais serei
para que seja leve
meu passo
em vosso caminho.*

Vamo brincá de autista? Que é isso de se fechá no mundão de gente e nunca mais ser cronista? Bom-dia, leitor. Tô brincando de ilha.

Fontes:
* Trovas de muito amor para um amado senhor – SP: Anhambi, 1959

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Lirismos de Quinta – 17/11/2011

17 nov

Trechos selecionados: Do Desejo – Hilda Hilst

Quem és? Perguntei ao desejo.

Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.

III

Colada à tua boca a minha desordem.

O meu vasto querer.

O incompossível se fazendo ordem.

Colada à tua boca, mas descomedida

Árdua

Construtor de ilusões examino-te sôfrega

Como se fosses morrer colado à minha boca.

Como se fosse nascer

E tu fosses o dia magnânimo

Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

XII

Lembra-te que há um querer doloroso

E de fastio a que chamam de amor.

E outro de tulipas e de espelhos

Licencioso, indigno, a que chamam desejo.

Há o caminhar um descaminho, um arrastar-se

Em direção aos ventos, aos açoites

E um único extraordinário turbilhão.

Porque me queres sempre nos espelhos

Naquele descaminhar, no pó dos impossíveis

Se só me quero viva nas tuas veias?

IX

E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas

Obscenas, porque era assim que gostávamos.

Mas não menti gozo prazer lascívia

Nem omiti que a alma está além, buscando

Aquele Outro. E te repito: por que haverias

De querer minha alma na tua cama?

Jubila-te da memória de coitos e acertos.

Ou tenta-me de novo. Obriga-me

Lirismos De Quinta – 20/10/2011

20 out

Hoje o Lirismos de Quinta traz um poema de Cazuza encontrado em seu quarto por Lucinha Araújo, sua mãe.

Querido Diário (Tópicos para uma semana utópica)

Segunda-feira:
Criar a partir do feio
Enfeitar o feio
Até o feio seduzir o belo

Terça-feira:
Evitar mentiras meigas
Enfrentar taras obscuras
Amar de pau duro

Quarta-feira:
Magia acima de tudo
Drogas barbitúricos
I Ching
Seitas macabras
O irracional como aceitação do universo

Quinta-feira:
Olhar o mundo
Com a coragem do cego
Ler da tua boca as palavras
Com a atenção do surdo
Falar com os olhos e as mãos
Como fazem os mudos

Sexta-feira:
Assunto de família:
Melhor fazer as malas
E procurar uma nova
(Só as mães são felizes)

Sábado:
Não adianta desperdiçar sofrimento
Por quem não merece
É como escrever poemas no papel higiênico
E limpar o cu
Com os sentimentos mais nobres

Domingo:
Não pisar em falso
Nem nos formigueiros de domingo
Amar ensina a não ser só
Só fogos de São João no céu sem lua
Mas reparar e não pisar em falso
Nem nas moitas do metrô nos muros
E esquinas sacanas comendo a rua
Porque amar ensina a ser só
Lamente longe por favor
Chore sem fazer barulho

Lirismos de Quinta – 23/09/2011

23 set

Hoje o Lirismos de Quinta está atrasado, mas vamos fingir que ainda é quinta.

Casa Comigo, de Michel Melamed, do livro Regurgitofagia.

Casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo. a mais linda, a mais amada, respeitada, cuidada. a mais bem comida. e a pessoa mais namorada do mundo e a mais casada. e a mais festas, viagens, jantares. casa comigo que te faço a pessoa mais realizada profissionalmente. e a mais grávida e a mais mãe. e a pessoa mais primeiras discussões. a pessoa mais novas brigas e as discussões de sempre. casa comigo que te faço a pessoa mais separada do mundo. te faço a pessoa mais solitária com filho para criar do mundo. a pessoa mais foi ao fundo do poço e dá a volta por cima de todas. a mais reconstruiu sua vida. a mais conheceu uma nova pessoa, a mais se apaixonou novamente. casa comigo que te faço a pessoa mais ‘casa comigo que te faço a pessoa mais casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo'”.

Lirismos de Quinta – 15/09/2011

16 set

Seu Nome, um dos poemas mais bonitos que li nos últimos tempos, por Fabrício Corsaletti, um romântico rasgado tardio que faltava na poesia contemporânea.

 

Seu Nome

Se eu tivesse um bar ele teria o seu nome
Se eu tivesse um barco ele teria o seu nome
Se eu comprasse uma égua daria a ela o seu nome
Minha cadela imaginária tem o seu nome
Se eu enlouquecer passarei as tardes repetindo o seu nome
Se eu morrer velhinho, no suspiro final balbuciarei o seu nome
Se eu for assassinado com a boca cheia de sangue gritarei o seu nome
Se encontrarem meu corpo boiando no mar no meu bolso haverá um bilhete com o seu nome
Se eu me suicidar ao puxar o gatilho pensarei no seu nome
A primeira garota que beijei tinha o seu nome
Na sétima série eu tinha duas amigas com o seu nome
Antes de você tive três namoradas com o seu nome
Na rua há mulheres que parecem ter o seu nome
Na locadora que frequento tem uma moça com o seu nome
Às vezes as nuvens quase formam o seu nome
Olhando as estrelas é sempre possível desenhar o seu nome
O último verso do famoso poema de Éluard poderia muito bem ser o seu nome
Apollinaire escreveu poemas a Lou porque na loucura da guerra não conseguia lembrar o seu nome
Não entendo por que Chico Buarque não compôs uma música para o seu nome
Se eu fosse um travesti usaria o seu nome
Se um dia eu mudar de sexo adotarei o seu nome
Minha mãe me contou que se eu tivesse nascido menina teria o seu nome
Se eu tiver uma filha ela terá o seu nome
Minha senha do e-mail já foi o seu nome
Minha senha do banco é uma variação do seu nome
Tenho pena dos seus filhos porque em geral dizem “mãe” em vez do seu nome
Tenho pena dos seus pais porque em geral dizem “filha” em vez do seu nome
Tenho muita pena dos seus ex-maridos porque associam o termo ex-mulher ao seu nome
Tenho inveja do oficial de registro que datilografou pela primeira vez o seu nome
Quando fico bêbado falo muito o seu nome
Quando estou sóbrio me controlo para não falar demais o seu nome
É difícil falar de você sem mencionar o seu nome
Uma vez sonhei que tudo no mundo tinha o seu nome
Coelho tinha o seu nome
Xícara tinha o seu nome
Teleférico tinha o seu nome
No índice onomástico da minha biografia haverá milhares de ocorrências do seu nome
Na foto de Korda para onde olha o Che senão para o infinito do seu nome?
Algumas professoras da USP seriam menos amargas se tivessem o seu nome
Detesto trabalho porque me impede de me concentrar no seu nome
Cabala é uma palavra linda, mas não chega aos pés do seu nome
No cabo da minha bengala gravarei o seu nome
Não posso ser niilista enquanto existir o seu nome
Não posso ser anarquista se isso implicar a degradação do seu nome
Não posso ser comunista se tiver que compartilhar o seu nome
Não posso ser fascista se não quero impor a outros o seu nome
Não posso ser capitalista se não desejo nada além do seu nome
Quando saí da casa dos meus pais fui atrás do seu nome
Morei três anos num bairro que tinha o seu nome
Espero nunca deixar de te amar para não esquecer o seu nome
Espero que você nunca me deixe para eu não ser obrigado a esquecer o seu nome
Espero nunca te odiar para não ter que odiar o seu nome
Espero que você nunca me odeie para eu não ficar arrasado ao ouvir o seu nome
A literatura não me interessa tanto quanto o seu nome
Quando a poesia é boa é como o seu nome
Quando a poesia é ruim tem algo do seu nome
Estou cansado da vida, mas isso não tem nada a ver com o seu nome
Estou escrevendo o quinquagésimo oitavo verso sobre o seu nome
Talvez eu não seja um poeta a altura do seu nome
Por via das dúvidas vou acabar o poema sem dizer explicitamente o seu nome

Salão do Livro Infantil e Juvenil

1 set

A fim de buscar uma aproximação da literatura por parte do público jovem, em especial infanto-juvenil, começa hoje, na Serraria Souza Pinto (Avenida Assis Chateubriand, 809 – Centro), o Salão do Livro Infantil e Juvenil.

Buscando principalmente a democratização do acesso ao universo do livro, o evento, que vai de hoje, dia 1º, até dia 11 de setembro,  traz uma programação variada, incluindo oficinas, espetáculos teatrais, narrações de histórias, cinema, leituras literárias, lançamento de livros e sessão de autógrafos que vai reunir grandes nomes da literatura mineira e brasileira, especialmente autores que lidam com o público infantil e/ou juvenil. Dentre os nomes presentes, se encontram Affonso Romano de Sant’Anna, Bartolomeu Campos de Queirós, Duílio Gomes, Ferreira Gullar, Flávia Savary, Lígia Cademartori, Luís Gifonni, Luís Fernando Veríssimo, Marina Colasanti, Miqueias Paz, Peter O’Sagae, Ronald Claver, Ruth Rocha, Sandra Bittencourt, Sandra Lane, Tino Freitas, Vera Maria Tietzmann da Silva, Ziraldo entre outros.

Ainda dentro da programação, estão previstos “Diálogos Literários”, bate-papos de escritores com o público sobre criação literária; mesas-redondas a fim de debater temas relacionados à literatura e à leitura para crianças e jovens; “Memórias Literárias”, que resgatam lembranças e experiências de autores com a literatura na infância e na adolescência, e “Polêmicas”, que trazem posições antagônicas sobre direitos autorais, contações e leituras de histórias.

Além de tudo, o evento é de entrada franca, e estará aberto ao público no horário de 9h às 21h, em dias úteis, de 10h às 21h nos finais de semana e no feriado. A única exceção é o último dia do evento, que funcionará no horário de 10h às 20h.

(Com informações do site oficial e do Sou BH)

Como os livros funcionam

4 jun

 

Ou não. Às vezes pode acontecer o contrário.