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Lirismos de finge que ainda é quinta – 19/10/2012

19 out

Fim e Começo – Wislawa Szymborska
Depois de cada guerra
alguém tem que fazer a faxina.
Colocar uma certa ordem
que afinal não se faz sozinha.

Alguém tem que jogar o entulho
para o lado da estrada
para que possam passar
os carros carregando os corpos.

Alguém tem que se atolar
no lodo e nas cinzas
em molas de sofás
em cacos de vidro
e em trapos ensanguentados.

Alguém tem que arrastar a viga
para apoiar a parede,
pôr a porta nos caixilhos,
envidraçar a janela.

A cena não rende foto
e leva anos.
E todas as câmeras já debandaram
para outra guerra.

As pontes têm que ser refeitas,
e também as estações.
De tanto arregaçá-las
as mangas ficarão em farrapos.

Alguém de vassoura na mão
ainda recorda como foi.
Alguém escuta
meneando a cabeça que se safou.
Mas ao seu redor
já começam a rondar
os que acham tudo muito chato.

Às vezes alguém desenterra
de sob um arbusto
velhos argumentos enferrujados
e os arrasta para o lixão.

Os que sabiam
o que aqui se passou
devem dar lugar àqueles
que pouco sabem.
Ou menos que pouco.
E por fim nada mais que nada.

Na relva que cobriu
as causas e os efeitos
alguém deve se deitar
com um capim entre os dentes
e namorar as nuvens.

Do livro: Wislawa Szymborska [poemas] Companhia das Letras. Tradução de Regina Przybycien

[adult swim] Singles Program 2012

25 set

A gente morre de saudades do [adult swim] e do seu Aquateen: O Esquadrão Força Total, O Show do Brak e outros desenhos sensacionais que já não dão o ar de sua graça na TV a cabo brasileira. O canal do Cartoon Network, que há muito tem uma relação estreita e recíproca com o mundo da música, abriu o seu terceiro “Adult Swim Singles Program”, basicamente um bloco em que eles divulgam músicas inéditas de algumas de suas bandas favoritas. O programa de 13 semanas (18 de junho a 10 de setembro) já disponibilizou em seu site – que valeria a visita só pelas ilustrações – faixas inéditas dos The Hives, Flying Lotus, Death Grips e outras 10 bandas. Detalhe: todas disponíveis para download.

Fica aí a programação, a edição do ano passado e um vídeo dos Flying Lotus em parceria com o canal:

6/18 Unknown Mortal Orchestra
6/25 The Hives
7/2 Wye Oak
7/9 Absu
7/16 The Field
7/23 Flying Lotus
7/30 Gauntlet Hair
8/6 Wavves
8/13 Com Truise
8/20 Yamantaka//Sonic Titan
8/27 Elite Gymnastics
9/3 TBA
9/10 Death Grips

Vocês, Os Vivos

6 ago

Acho que não sou só eu, mas sempre topo com coisas incríveis que acabam comigo porque não são minhas. Poucas obras me despertaram tanto essa sensação como Vocês, Os Vivos (Du Levande), de Roy Andersson.

O cineasta sueco já dirigiu seis curtas e quatro longas e a excentricidade é uma característica presente em suas obras, inclusive nos comerciais que ele produz para sustentar suas extravagâncias fílmicas. Em Vocês, Os Vivos Andersson coordena e enquadra tudo perfeitamente com uma câmera fixa, geralmente a partir de um plano um pouco elevado.

O que mais me fascinou no filme foi a maneira que ele nos força a olhar o quadro inteiro, detalhadamente – já que não é só no primeiro plano que acontece a ação, mas atrás de toda janela ou porta ou fresta há uma (suposta) banalidade a ser reparada. Por não haverem diálogos ou enredo lineares, acredito que muitos o acharão entediante e confuso (e isso ele é mesmo), mas a beleza do filme está na trivialidade das cenas que se sustentam sozinhas e delineam a tragicomédia humana.

Embora sejam filmes e propostas muito diferentes, não pude deixar de lembrar do Baraka, talvez por ambos retratarem cenas randômicas de comportamentos e apresentarem-nos de uma maneira imparcial e longíqua, colocando-nos na posição de observadores também imparciais.

Sim, eu enchi o post de imagens porque 1: a fotografia é incrível e 2: quero convencê-los a assistir esse filme que é, sem dúvida, diferente de tudo que já vi. E, ó, pra isso até aprendi a mexer no Movie Maker e cortar uma das cenas mais incríveis de suas uma hora e meia de duração:

Superando a procrastinação em 3 minutos.

1 ago

Acredito que a iminência do final das férias nos perturbe tanto pelo simples fato da privação de procrastinar. A cineasta Miranda July, para divulgar seu novo filme, “The Future”, que estreeou nos Estados Unidos no dia 29 de julho, produziu um curta com dicas para que superemos este mal.

Em “A Handy Tip For the Easily Distracted” a própria Miranda recolhe os objetos que a destraem e os esconde de modo que, para resgatá-los, ela terá que colocar seu vestido de estimação em risco.

Achei a ideia válida e até a aplicaria se minhas distrações não fossem mais complicadas e maiores.
Nota mental: comprar bacias que caibam pessoas, minha cama e a geladeira.

Como um artista

29 maio

Uma tira pra gente reler quando vierem aqueles pensamentos bobos sobre nós mesmos e nossas capacidades:

No atelier de Ericka Lugo

26 maio

Ericka Lugo é uma ilustradora de Porto Rico, nascida em 1986. Gosto muito do aspecto de rascunho de seus desenhos, mesmo nas pinturas digitais, além da combinação de cores vibrantes com tons claros e escuros, em composições bem expressivas. Seu trabalho pode ser visto em seu blog e em sua página no deviantART.

Be yourself, respect your youth

11 fev

Primeira imagem da era Born This Way

Escrevo este post já rouco (às 9 horas da manhã) e sem conseguir parar de dançar e cantar (ou desativar o replay). Em 2009, no VMA, uma garota de apenas 23 anos colocava suas garras sangrentas para fora. Antes disso, uma infinidade de hits e estilos levaram-na ao estrelato em uma velocidade inimaginável. Nem Madonna, à qual ela foi sempre comparada, conseguiu tamanha façanha em tão pouco tempo. Sangrando durante 4 minutos em televisão aberta, ela enterrava a era The Fame, cheia de humor irônico, apelo sexual e hits descompromissados. Nascia a era The Fame Monster, uma verdadeira apologia à monstruosidade, em todas suas faces (ou olhos, garras e presas) e, principalmente, ao medo. Uma gogo dancer e performer de New York, vinda de família italiana e tradicional, de repente, tornava-se a mulher mais conhecida no mundo. Paparazzi, fãs “xiitas” e os meios de comunicação tentaram derrubá-la, inventando mentiras sobre seu sexo, amantes e intenções artísticas. Mas a ela só interessavam as mentiras que ela mesma queria contar. E as de seus fãs também. O Manifesto of Little Monsters selou o pacto entre ela e milhões de crianças, jovens e adultos, seus little monsters, mentirosos por natureza. Com a Monster Ball, ela trouxe todos seus monstros ao palco, derrubando um a um. O amante canibal, o horrível peixe abissal da infância, as drogas, o escuro, os fantasmas underground. Com o videoclipe de Alejandro, ela enterrava a era The Fame Monster, pois os monstros já não conseguiam mais assustá-la. Sua nudez frente aos soldados do vídeo mostrava: ela estava preparada para dar sua cara a tapa e seguir em frente. Ela já tinha fama, não precisava mais falar sobre isso. Cabelo curto, roupas mais simples e a divulgação de You & I não enganavam: a estrela havia sofrido uma mutação. Seria somente por estar apaixonada, novamente, por um cool Nebraska guy? E daí? Ela nunca escondeu a essência sentimental de toda sua arte.

Na mesma época do lançamento de Alejandro, ela revisitava sua cidade natal, reencontrava seus velhos amigos e família, refazia um romance. A época perfeita para anunciar, oficialmente, a vinda de um novo álbum. Já no VMA de 2o10, enquanto o mundo chocava-se com sua roupa de carne, os little monsters festejavam o anúncio do nome de seu novo trabalho: Born This Way. Nos meses seguintes, tudo o que tínhamos eram quatro versos: I’m beautiful in my way / ‘Cause God makes no mistakes / I’m on the right track, baby / I was Born This Way. Já bastava (por hora). Sabíamos que ela tornaria verdade as mentiras contadas todas as noites, durante seus gigantescos concertos: retribuiria toda a confiança depositada nela por seus fãs, os responsáveis por ela chegar aonde está. E o principal: lutaria por eles e por seus direitos. Dito e feito: hoje, dia 11 de Fevereiro de 2011, a cantora lança seu novo single: Born This Way.

Capa do single “Born This Way”

Crianças sofrendo dentro e fora de casa por gostarem dos brinquedos que seus pais e professores acham inapropriados. Adolescentes que são obrigados a “castrar” sua sexualidade, para não viverem uma guerra em casa e na escola. Em troca disso, vivenciam batalhas contínuas e dolorosas, dentro de si mesmos. Aqueles que não encontram apoio em amigos ou em psicólogos, morrem mentalmente e/ou fisicamente. Adultos que encontram, nos outros, repulsa e discriminação, por estarem amando alguém do mesmo sexo. E essas pessoas são as que sofrem por questões sexuais e religiosas. A música ainda traz à tona aquelas que são discriminadas por sua etnia, cor da pele, ascendência ou credo. E os versos de Born This Way falam de todas essas pessoas que vivem um inferno por terem nascido diferente do que os outros esperam delas. Seria absurdo afirmar que essa cantora é a primeira a trazer esse assunto à tona, mas será que os fatos de ela ser a mais conhecida no mundo e de sua música, a partir de agora, começar a tocar em todos os lugares, rádios e casas, não farão a diferença? Discursos até mais elaborados do que o dela espalham-se por todo o mundo (ainda bem), mas, com certeza, a partir de 2011, o de Lady Gaga será o mais ouvido. A capa do single resume muito bem toda a elaborada letra e a musicalidade super bem produzida de Born This Way: Gaga agora é aquela que une o monstro e a beleza, como o unicórnio, símbolo (clássico) de sua nova era. Nua e etérea, mas ao mesmo tempo poderosa e indestrutível, ela mostra que está pronta para a batalha e que será impossível derrubá-la. Sem recorrer ao ódio ou à intolerância, ela inicia uma guerra. Dê o play na primeira batalha.