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Maria Raquel fora das quatro paredes

18 mar

Nossa primeira entrevistada para a sessão inaugural do “Entre Quatro Paredes” foi a Maria Raquel, que grafita bolinhos por muros abandonados em Belo Horizonte e Itabira. Na época, Maria Raquel tinha começado há pouco mais de um ano com seu belo trabalho de espalhar cupcakes coloridos pelos muros mais feios e sem graça de BH. No entanto, hoje em dia os bolinhos da professora de português estão espalhados por várias outras cidades do Brasil, como São Paulo e Cabo Frio, e já ganharam até repercussão internacional. Mais recentemente, a equipe do UniBHTV entrevistou Maria Raquel fora das quatro paredes. Confira abaixo a entrevista:

Sugestão do leitor Caio Sávio.

Maria Raquel entre quatro paredes

11 nov

EV! entrevista a artista mineira que grafita cupcakes pelas ruas da capital

Começa a semana e as escolas se enchem novamente de alunos desejosos de aprendizado (hehe), mesmo após o exaustivo Exame Nacional do Ensino Médio. Em um colégio específico da capital mineira, entra na sala de aula a professora de português Maria Raquel, 24 anos,  que, entre um dia de aula e outro… grafita. Quem diria? Os alunos da moça, formada em Letras pela UFMG, provavelmente não.

O leitor que mora em Belo Horizonte já deve ter notado alguns bolinhos bastante expressivos espalhados pelo cenário urbano local. Esses cupcakes, marca registrada (literalmente) da Maria Raquel conferem uma boa dose de cor e vida a alguns dos muros e portões mais sujos da metrópole. Essa delicada dose de humor tempera o dia das centenas de transeuntes que passam pelas pinturas da artista todos os dias. O EV! a convidou, portanto, para participar de um pequeno interrogatório Entre Quatro Paredes, nome da nossa nova coluna de entrevistas. Quem melhor para nos contar seus segredos do que alguém cuja expressão artística é, de certa forma, clandestina?

Por que escolheu o graffiti como forma de expressão?

Meu interesse pelo graffiti surgiu desde que me mudei (de Itabira) para BH. Eu ficava dentro do ônibus no caminho da minha casa até a faculdade quase 2h e ia observando a cidade para me distrair. Passar pelo que era a Avenida Antônio Carlos antes da reforma e não prestar atenção nos graffitis era quase impossível pois, no meio de tanto cinza, quando se vê um desenho colorido, ele chama muita atenção. Todo dia, novos graffitis surgiam, todo dia, vários outros sumiam e eu ficava de olho em tudo que acontecia na cidade. Como todo mundo que começa a pintar, eu queria ver na rua alguma coisa que fosse minha. Quando você pinta alguma coisa na rua, você deixa um pedaço seu ali pra ser compartilhado com todo mundo. Eu queria passar por um lugar e pensar que ali tinha um pouco de mim, do mesmo jeito que alguém que gosta de um graffiti passa por aquele lugar e sente que ali tem um pouco dele também.

Por que bolinhos? Eles ficam só nos muros ou aparecem também na sua cozinha?

Eu escolhi fazer um bolinho, primeiro porque eu sou louca com comida, e, provavelmente, se eu não fizesse um bolinho eu faria qualquer outra coisa de comer. Eu adoro cozinhar e fazer bolos e doces, então os bolinhos saíram da minha cozinha direto pro muro. Segundo, porque eu gostaria de pintar algo que pudesse chamar a atenção de todo tipo de gente. Existem alguns tipos de graffiti que são feitos somente para quem gosta de graffiti. Já, pelo contrário, a minha intenção era fazer algo que chamasse a atenção de qualquer pessoa. Por isso escolhi um desenho simples e bastante colorido.

Como desenvolveu a técnica?

Apesar de gostar de graffiti, eu tinha pouco contato com pessoas que pintavam e imaginava que fosse muito difícil de fazer. Eu nunca tinha estudado desenho e nem tinha um dom natural, desse modo, não me achava muito capaz de criar nada. Mas minha vontade de pintar era tão grande que comecei a desenhar, criei meu personagem, e treinei bastante até me sentir segura para pintar na parede.  Além disso, nesse tempo conheci a kamikaze crew, eles já pintavam havia algum tempo e me ajudaram bastante.

Já teve algum problema com a polícia, transeuntes ou moradores locais por causa dos seus desenhos?

Eu moro atualmente em BH e em Itabira, então meus bolinhos estão espalhados nessas duas cidades. Itabira é uma cidade pequena, desse modo, a maioria das pessoas ainda tem certa dificuldade para entender o graffiti. Alguns acham que é vandalismo e, se me vêm pintando, chamam a polícia e implicam. Outros já acham que alguém me pagou para fazer aquilo, não entendem que eu posso escolher um lugar para pintar só porque eu gosto de fazer aquilo.

Mas já tive alguns problemas pintando em BH. Quando você está na rua, tem de estar disposto a tudo: as pessoas que te veem pintando têm sempre alguma reação e sempre passam gritando, xingando ou elogiando. A polícia já apareceu algumas vezes, já tive que parar alguns bolinhos pela metade porque o dono do local apareceu e uma velhinha já quase me bateu. Mas a diversão de pintar está nessas coisas, toda vez que saio para pintar volto cheia de história pra contar.

Seus graffitis estão espalhados por vários pontos da cidade. Você tem algum critério para a escolha do local?

Eu gosto de escolher lugares mais sujos e bem destruídos pra pintar. Eu sou fascinada com lugares abandonados, cheios de lixo, cartazes, pichação e acho que o graffiti consegue trazer um pouco mais de vida e cor para esses lugares. Eu acho que o graffiti se faz não só pelo desenho em si, mas pela composição do desenho com o lugar em que ele foi pintado. Assim, quando eu vou escolher um lugar para pintar, eu penso em como vai ficar a foto depois e tento pintar de uma forma que o desenho se encaixe da melhor forma possível naquele lugar.

Tem algum favorito? Algum que tenha sido muito difícil de fazer?

É difícil escolher só um favorito, mas os que eu mais gosto são os grandões [como os abaixo]. Eles são bem mais difíceis de fazer, eu me sujo inteira, morro de dor no braço pelo resto da semana, contudo o resultado vale muito a pena! Eu sinto uma satisfação muito grande quando acabo de pintar!

Quais são suas influências?

Uma das minhas maiores influências artísticas é o Keith Haring. Eu gosto de artistas que seguem esse estilo com cores bem fortes e desenhos e formas bem simples. Me impressiona como desenhos bobos e até mesmo infantis podem ser capazes de encantar e passar uma mensagem tão forte.

Keith Haring e as cores que inspiram Maria Raquel

No graffiti, meus artistas prediletos são o GR17O e o ARYZ. Os dois seguem uma linha parecida, pois fazem graffitis bem grandes, ricos em detalhes, mas de uma forma que consegue manter a simplicidade dos desenhos. No Brasil eu gosto muito da Minhau e do Ise. Ambos são de SP, que, eu acho, pode ser considerado o pólo do graffiti no Brasil.