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Lirismos de Quinta – 23/06/2011

23 jun

Roberto Piva recita “A Piedade e vozes de Jim Morrison, William Burroughs, Patti Smith, Jack Kerouac e Antonin Artaud. Músicas de Stockhausen, Lou Reed e Morfine.

A Piedade

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento
abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da
luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam
cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio
bóia? por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as
estátuas de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos
pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam
que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos
pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas
asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através
dos meus sonhos

Só garotos

27 dez

Meu querido Rafael Reis enviou-me sua resenha do livro Só Garotos, autobiografia da roqueira Patti Smith. O texto, além de ser de altíssima qualidade, é bem convincente, afinal não é qualquer resenha que me faz querer ler um livro. Quem ficar curioso, pode ler um trecho do livro disponibilizado pela Folha de São Paulo Online clicando aqui.

Sobre Só Garotos, de Patti Smith

por Rafael Reis

Uma das maiores qualidades de Só Garotos, de Patti Smith, é que o livro oferece vários motivos para ser lido. Se pensado como o relato de uma época, ou de uma geração, ele possui valor histórico semelhante ao clássico On the Road, de Jack Kerouac. A comparação, aliás, não é fortuita e já foi apontada pela crítica. De fato, há alguns pontos interessantes que ligam a obra de Patti Smith à bíblia beatnik, mas são as diferenças que chamam mais atenção. Primeiramente, Só Garotos não é uma obra de grandes deslocamentos; não se trata mais de atravessar os Estados Unidos de leste a oeste, empreendendo uma viagem duplamente espacial (exterior e interior), mas de conquistar uma cidade – Nova York. Do Brooklin ao Hotel Chelsea, do Chelsea ao Max’s ou ao estúdio de Jimmy Hendrix, quase tudo acontece em espaços restritos, sem muito deslocamento. Os próprios beats, na obra, são figuras fantasmagóricas, uma espécie de presença ausente. O mutismo de William Burroughs ou a influência de Allen Ginsberg indicam que, se o movimento beat ainda sobrevivia, como no modo de se vestir da narradora ou no modo de agir de alguns amigos, era mais como um vestígio de um passado recente. Nesse sentido, Só Garotos, se aproximado a On the Road, pode ser lido como uma continuação – o nascimento de uma cena artística pós beat.

Narrativa de formação

Outro motivo que faz de Só Garotos uma obra singular é seu caráter formativo, no sentido do que a crítica literária convencionou chamar de “narrativa de formação”.  A cronologia da narrativa vai do nascimento de Patti Smith e de Robert Mapplelthorpe, em 1946, até a morte deste, em 1989, mas a maior parte vai de 67 – no verão em que acontece o encontro casual, mas definitivo – até 1975 – ano em que o sucesso no mundo das artes já era iminente. Nesse meio tempo, a passagem da adolescência para a vida adulta; a descoberta de si, do outro e da arte associada ao amadurecimento forçado; o amor e a entrega associados à miséria, ao desespero, às separações: dormir em praças, passar fome, prostituir-se, trabalhar em subempregos, fugir de hotéis pela escada de incêndio por falta de dinheiro… Essas são algumas situações vividas nesse período e mostram os sacrifícios que o mundo da arte, muitas vezes, impõe aos que querem se tornar artistas.

Uma história de amor, de devoção

Um dos aspectos mais belos da história de Patti Smith e Mapplethorpe consiste na capacidade da narradora de transformar uma relação afetiva e artística absolutamente profana e pouco convencional num amor quase sacro; sacro porque, a meu ver, sua relação com Robert Mapplethorpe só pode ser compreendida na esfera de uma devoção mútua, que ela normalmente define como “confiança”. Ao menos parece ser esse o sentido da mensagem que precede o prólogo, uma espécie de advertência para o leitor:

Muito já se falou sobre Robert, e outras coisas ainda serão ditas. Os rapazes imitarão seu jeito de andar. As garotas usarão vestidos brancos e chorarão por seus cabelos cacheados. Ele será condenado e adorado. Seus excessos serão malditos e romanceados. Por fim, descobrirão a verdade em seu trabalho, o corpo físico do artista. Isso não se afastará. Os homens não podem julgá-lo. Pois é a Deus que a arte canta, e afinal pertence a ele.

Esse caráter dual ligado à vida e à obra de Mapplethorpe pode ser facilmente confirmado numa rápida busca na internet. Por um lado, a Robert Mapplethorpe Foundation (www.mapplethorpe.org), responsável pela divulgação de sua obra, parece mais voltada para a sacralização da sua arte, exibindo prioritariamente trabalhos de alta qualidade estética e trabalhos associados a uma cena artística “de peso”, com retratos de Patti Smith, Andy Wahrol, dentre outros grandes. Por outro lado, no terreno mais livre da internet, descobrimos a faceta mais polêmica do artista, que escandalizou, e ainda escandaliza, com seus estudos fotográficos das perversões, sobretudo o sadomasoquismo homossexual.

Patti Smith, porém, resolve o problema das contradições por meio de um discurso radicalmente amoroso. Ela consegue sacralizar “o corpo físico do artista”, mostrando que é preciso chegar ao entendimento que “não existe o puro mal nem o puro bem, só a pureza” (p. 180). Podemos, então, falar que também existiria uma pureza sadomasoquista? Lembremos que o desconserto é inerente à arte. Além disso, se a arte canta a Deus, o que podem nossos ouvidos?

Uma grande obra literária

As razões apontadas, por si só, já valeriam a leitura de Só Garotos. No entanto, como relato de uma época, teria sobretudo valor documental; como narrativa de formação, interessaria mais àqueles que aspiram ao incerto mundo da arte; como discurso amoroso ou livro de memórias, interessaria aos que, de alguma maneira, participam do contexto ou com ele se identificam.

Mas Só Garotos é também uma bela obra literária. Escrito como fotogramas que a palavra coloca em movimento – a palavra poética, escolhida e medida com precisão, dizendo somente o necessário. Às vezes, tem-se a impressão que algo ficou por ser dito, que há algo na cena que foi ocultado ou que houve a suspensão momentânea de algo que será esclarecido posteriormente. Mas não seria esse o próprio mecanismo lacunar da memória? Linear cronologicamente e estruturalmente fragmentado, muitos fragmentos possuem uma beleza própria, revelando uma narrativa meticulosamente elaborada. Vejamos um trecho:

Aonde tudo aquilo levaria? O que seria de nós? Essas eram nossas perguntas juvenis, e as respostas juvenis a elas seriam reveladas.

Aquilo nos levou um para o outro. Nós nos tornamos nós mesmos.

Durante algum tempo, Robert me protegeu, depois foi dependente de mim, e depois possessivo. Sua transformação foi a rosa de Genet, e ele foi profundamente dilacerado por seu próprio florescimento. Eu também desejava sentir mais o mundo. Embora esse desejo não passasse de uma vontade de voltar àquele lugar onde nossa luz silenciosa se irradiava de luminárias pendentes com painéis espelhados. Havíamos nos aventurado como crianças de Maeterlinck atrás do pássaro azul e ficamos enredados nos espinhos retorcidos de nossas novas experiências.

Ao final, a angústia diante do fracasso da experiência literária:

Por que não consigo escrever algo que faça despertar os mortos? Essa busca é o que mais arde no fundo.

Esse questionamento já não é o de uma narradora, ou mesmo de uma escritora – é o questionamento de uma amante desesperada diante da inexorabilidade da morte. Que nós, leitores, nos detenhamos aqui com uma convicção: não, não é possível despertar os mortos por meio das palavras. Mas é possível despertar os vivos – e às vezes isso basta.

(Só Garotos, Patti Smith. Companhia das Letras, 2010. Tradução de Alexandre Barbosa de Souza.)


Uivo à noite do mundo

17 jul

O independente Howl ganha seu primeiro trailer

Houve um momento, em 1955, em que Allen Ginsberg leu seu poema Howl num lugar chamado Six Gallery, em São Francisco. Ao fim, com a plateia aos prantos, o editor da City Lights lhe oferece uma oportunidade de publicação. E assim decola a carreira de um dos ícones do movimento Beat: ao ter um milhão de exemplares de Howl (Uivo) vendidos em bem pouco tempo, seu livro se torna o livro de poesia mais vendido da história dos Estados Unidos.

É no espírito, portanto, desse visceral poema que Rob Epstein e Jeffrey Friedman escreveram e dirigiram a cinebiografia homônima. No papel de Allen está ninguém menos do que James Franco, escolha acertada em quem considero um dos melhores atores do nova geração norte-americana. No papel de Jack Kerouac, por sua vez, estará Todd Rotondi e nosso adorado Gus Van Sant ficou encarregado da prodoução executiva.

Na verdade, o filme já foi até exibido no Festival Sundance de Cinema (Howl foi exibido em sua abertura, em Janeiro), o maior festival de cinema independente do mundo, mas só chega aos cinemas este ano. O filme trata do julgamento por que passou Ginsberg por conta da sua obra considerada inadequada para a época e tem estreia a 24 de Setembro nos EUA, mas sem previsão de quando sairá no Brasil. Pois é. Fiquem, pelo menos, com o inteligente trailer que saiu essa semana:

Jack Kerouac

23 mar

Como minha contribuição ao blog tem sido mínima, resolvi passar brevemente por aqui e postar um trecho de Tristessa, romance menos conhecido de J. Kerouac.

“[…] O abismo e o horror de meu caráter, os músculos tensos do pescoço de Virya que um homem necessita para apertar os dentes um contra o outro, para passar por estradas solitárias de chuva à noite sem esperança de uma cama quente – Minha cabeça se abate e se exaure de pensar nisso. Tristessa diz “Como está Jack?” Ela sempre pergunta: “Porque você está tão triste?? – ‘Muy dolorosa”, como se quisesse dizer “Você está com muita dor”, pois dor significa dolor.“- Estou triste porque toda a vida es dolorosa”, repito sempre, na esperança de ensinar a ela a Verdade Número Um das Quatro Grandes Verdades – Além disso, o que poderia ser mais verdadeiro?”

[…]

Tristessa está inclinada sobre a colher de onde fervem mais morfina em sua caldeira de fósforo. Ela parece estranha e mais magra e você vê as curvas escassas de seu traseiro no vestido maluco que parece um quimono quando ela se ajoelha como se estivesse rezando sobre a cama preparando seu pico em cima da cadeira cheia de cinzas, alfinetes de cabelo, algodão, coisas para usar na cara como rímel e batons mexicanos estranhos e cremes e enfeites – entranhas, restos mortais de lixo que, se estivesse sido derrubadas, teriam acrescentado apenas uma pequena quantidade extra de confusão à bagunça do chão. […] “mas as moitas e as rochas não eram reais e a beleza das coisas deve estar no fato de terminarem.”