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Lirismos de Quinta – 20/12/2012

20 dez

O último Lirismo de Quinta antes do fim do mundo.

À Vida – Marina Tsvetáieva

Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.

Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cabelo
Árabe — E abre a veia da vida.

 

Lirismos de Quinta – 13/12/2012

13 dez

Caixinha de Música – Henriqueta Lisboa

Pipa pinga
Pinto pia.
Chuva clara
como o dia
— de cristal.
Passarinhos
campainhas
colherinhas
de metal.

Tamborila
tamborila
uma goteira
na lata.
Está visto
que é só isso,
não preciso
de mais nada.

Lirismos de Quinta – 25/10/2012

25 out

Um poema de tirar o fôlego pra gente que tá apaixonado, do Ricardo Domeneck.

Entre o Fogo e a Derme

Como quem sopra
a própria pele antes
para você queimar
melhor, mais
eficaz. Com você,
os pontos da sutura
são auxílio ao corte.
Deito e observo
o prazer com que
você me desinfecta
para proteger,
contra minha tez,
os seus insetos.
Eis-me aqui,
querido, todo pós-
utópico depois
que você confunde
pela centésima vez
sulco e charrua
durante o sexo
ou seu exagero
em buscar no dicionário
antes de me tocar
a etimologia de palavras
como amortecimento.
Quando você fala,
arreganho os ouvidos
e olvidos e Ovídios
e respondo
à attention span
de peixe dourado
que você me dedica
em nossa vida de aquário.
Sei que devo soar,
aos seus ouvidos,
como um conjunto
de erratas e spam.
Resigno-me
como inseto extinto
preso em sua resina.
Os amigos sugerem
que eu deixe o cronômetro
vir coser os lábios
da ferida, enquanto
você seleciona
em random mode
por trilha-sonora
o sonzim dos meus ossos
que engranzam
sob o seu corpo.
Silêncio não
é costureira,
nem na Espanha
onde talvez haja
alguma que atenda
por Martírio ou Remédios,
como numa peça qualquer
de Lorca ou outra louca.
Sinto-me como uma Orca
justiceira ou uma Scarlett O´Hara
sem Tara.
Resta-me a esperança
que arqueólogos futuros
me descubram, soterrado,
fossilizado, esquecido
sob as suas vírgulas.
Hei de voltar, como um vírus
trancafiado nas tumbas
de Tutancâmon ou outra múmia,
devastarei paisagens e populações
à procura dos seus pulmões.

Publicado originalmente na página mensal de poesia contemporânea do caderno Prosa & Verso, do jornal O Globo, a 15 de janeiro de 2011.

Lirismos de finge que ainda é quinta – 19/10/2012

19 out

Fim e Começo – Wislawa Szymborska
Depois de cada guerra
alguém tem que fazer a faxina.
Colocar uma certa ordem
que afinal não se faz sozinha.

Alguém tem que jogar o entulho
para o lado da estrada
para que possam passar
os carros carregando os corpos.

Alguém tem que se atolar
no lodo e nas cinzas
em molas de sofás
em cacos de vidro
e em trapos ensanguentados.

Alguém tem que arrastar a viga
para apoiar a parede,
pôr a porta nos caixilhos,
envidraçar a janela.

A cena não rende foto
e leva anos.
E todas as câmeras já debandaram
para outra guerra.

As pontes têm que ser refeitas,
e também as estações.
De tanto arregaçá-las
as mangas ficarão em farrapos.

Alguém de vassoura na mão
ainda recorda como foi.
Alguém escuta
meneando a cabeça que se safou.
Mas ao seu redor
já começam a rondar
os que acham tudo muito chato.

Às vezes alguém desenterra
de sob um arbusto
velhos argumentos enferrujados
e os arrasta para o lixão.

Os que sabiam
o que aqui se passou
devem dar lugar àqueles
que pouco sabem.
Ou menos que pouco.
E por fim nada mais que nada.

Na relva que cobriu
as causas e os efeitos
alguém deve se deitar
com um capim entre os dentes
e namorar as nuvens.

Do livro: Wislawa Szymborska [poemas] Companhia das Letras. Tradução de Regina Przybycien

Lirismos de Quinta – 11/10/2012

11 out

“Tô Só”, crônica de Hilda Hilst mostrando que nem só de poesia se faz poesia.

Tô Só

Vamo brincá de ficá bestando e fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar nos Alpes Suíços e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando? Vamo brincá que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num festival de povão e dotô? Vamo brincá que a peste passô, que o HIV foi bombardeado com beagacês, e que tá todo mundo de novo namorando? Vamo brincá de morrê, porque a gente não morre mais e tamo sentindo saudade até de adoecê? E há escola e comida pra todos e há dentes na boca das gentes e dentes a mais, até nos pentes? E que os humanos não comem mais os animais, e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás? E que a alma é de uma terceira matéria, uma quântica quimera, e alguém lá no céu descobriu que a gente não vai mais pro beleléu? E que não há mais carros, só asas e barcos, e que a poesia viceja e grassa como grama (como diz o abade), e é porreta ser poeta no Planeta? Vamo brincá

de teta
de azul
de berimbau
de doutora em letras?

E de luar? Que é aquilo de vestir um véu todo irisado e rodar, rodar…
Vamo brincá de pinel? Que é isso de ficá loco e cortá a garganta dos otro?
Vamo brincá de ninho? E de poesia de amor?

nave
ave
moinho
e tudo mais serei
para que seja leve
meu passo
em vosso caminho.*

Vamo brincá de autista? Que é isso de se fechá no mundão de gente e nunca mais ser cronista? Bom-dia, leitor. Tô brincando de ilha.

Fontes:
* Trovas de muito amor para um amado senhor – SP: Anhambi, 1959

Lirismos de Quinta – 04/10/2012

4 out

BLUES

Como levar alguém que vai morrer

pra ver o sol nascer

como se fosse a primeira vez

Como um garoto cruzando o Atlântico num barco a vela

Como uma jovem mãe que perde o filho

no parque de diversões

Tipo esses filmes ruins que me fazem chorar

como um idiota que perdeu a paz

Como o garoto solitário

que entra de penetra na festa de aniversário

Como o filho cobrindo os pés do pai

à beira da morte

Como o viciado contando os dias

que permanece limpo

Como alguém que desistiu de ver o pôr-do-sol

Como alguém fechando a tampa do piano

Como alguém que você espera

entrando pela porta

Como alguém que você sempre esperou

e que nunca vai entrar

Como aquela mulher que não vai voltar

Como aquelas desavenças que nunca deixamos pra lá

Como aquelas coisas que julgávamos indispensáveis

e que depois de muitos anos

encontramos no vão do sofá.

 

Mario Bortolotto,

Dramaturgo bem foda que tem até uma banda de blues:

Lirismos de Quinta – 08/12/2011

8 dez

Do livro Sonetos, da poetisa portuguesa Florbela Espanca, Ed. Biblioteca Ulisseia de autores portugueses, 2002. Pág. 153.

Esquecimento – Florbela Espanca

Esse de quem eu era e que era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.

Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda claridade!
Ceguei… tacteio sombras… que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

Descem em mim poentes de Novembro…
A sombra dos meus olhos, a escurecer…
Veste de roxo e negro os crisantemos…

E desse que era meu já me não lembro…
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos!…