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Lirismos de Quinta – 16/06/2011

16 jun

Na última segunda-feira, 13/06, o Google lançou mais uma de suas logos comemorativas. Dessa vez, para celebrar o 123º aniversário do poeta português Fernando Pessoa. O EV! também traz sua homenagem ao nome mais memorável da língua portuguesa na poesia mundial. O estereoscópio que publicamos antes é en função do poema que escolhemos para fazer a homenagem.

Ulisses – Fernando Pessoa

(II – Os Castelos
Primeira Parte | Brasão)

O mito é o nada que é tudo.

O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

Lirismos de Quinta – 12/05/2011

12 maio

Para minha amiga JPP.

Sobre um Poema, Herberto Hélder

Um poema cresce inseguramente

na confusão da carne,

sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,

talvez como sangue

ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência

ou os bagos de uva de onde nascem

as raízes minúsculas do sol.

Fora, os corpos genuínos e inalteráveis

do nosso amor,

os rios, a grande paz exterior das coisas,

as folhas dormindo o silêncio,

as sementes à beira do vento,

– a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.

Insustentável, único,

invade as órbitas, a face amorfa das paredes,

a miséria dos minutos,

a força sustida das coisas,

a redonda e livre harmonia do mundo.

– Em baixo o instrumento perplexo ignora

a espinha do mistério.

– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.