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Vocês, Os Vivos

6 ago

Acho que não sou só eu, mas sempre topo com coisas incríveis que acabam comigo porque não são minhas. Poucas obras me despertaram tanto essa sensação como Vocês, Os Vivos (Du Levande), de Roy Andersson.

O cineasta sueco já dirigiu seis curtas e quatro longas e a excentricidade é uma característica presente em suas obras, inclusive nos comerciais que ele produz para sustentar suas extravagâncias fílmicas. Em Vocês, Os Vivos Andersson coordena e enquadra tudo perfeitamente com uma câmera fixa, geralmente a partir de um plano um pouco elevado.

O que mais me fascinou no filme foi a maneira que ele nos força a olhar o quadro inteiro, detalhadamente – já que não é só no primeiro plano que acontece a ação, mas atrás de toda janela ou porta ou fresta há uma (suposta) banalidade a ser reparada. Por não haverem diálogos ou enredo lineares, acredito que muitos o acharão entediante e confuso (e isso ele é mesmo), mas a beleza do filme está na trivialidade das cenas que se sustentam sozinhas e delineam a tragicomédia humana.

Embora sejam filmes e propostas muito diferentes, não pude deixar de lembrar do Baraka, talvez por ambos retratarem cenas randômicas de comportamentos e apresentarem-nos de uma maneira imparcial e longíqua, colocando-nos na posição de observadores também imparciais.

Sim, eu enchi o post de imagens porque 1: a fotografia é incrível e 2: quero convencê-los a assistir esse filme que é, sem dúvida, diferente de tudo que já vi. E, ó, pra isso até aprendi a mexer no Movie Maker e cortar uma das cenas mais incríveis de suas uma hora e meia de duração:

Quem e por que deixar entrar

12 jul

Cinema americano tenta mais uma adaptação de filme estrangeiro de sucesso

O cinema sueco ganhou destaque no ano passado por parte de seu Deixe Ela Entrar (Låt den rätte komma in, 2008), que trabalha o vampirismo e o amor juvenil sob uma ótica bem distante da que estamos acostumados. Apesar das diferenças abismais, é inevitável compará-lo à “Saga” Crepúsculo, fraca adaptação americana ao cinema da comercial e equivocada série de livros de mesmo nome. Na tentativa de viabilizar uma relação plausível entre uma jovem humana e um “jovem” vampiro, Stephenie Meyer, a autora dos livros, descaracteriza o gênero dos sugadores de sangue ignorando ou atenuando algumas de suas características clássicas. Somando isso ao enredo demasiado juvenil e claramente comercial, tem-se um misto de ação e romance protagonizado por personagens desinteressantes vivendo tramas desnecessárias.

Em oposição, Deixe Ela Entrar traz uma história dona de uma simplicidade cinzenta e silenciosa. Pelo fato de os protagonistas serem apenas duas crianças, o amor que surge gradativamente entre eles é tão discreto e singelo quanto é possível a tal sentimento. Essa atmosfera de candura, quietude e, de certa forma suspense, acaba por absorver boa parte do filme, em que a linguagem não verbal é uma forte aliada da discrição. Merece destaque também a fotografia que soma a branquíssima neve do subúrbio de Estocolmo à escuridão das noites de Inverno do extremo-norte.

No entanto, o roteiro de John Ajvide Lindqvist (que escreveu também o livro em que foi baseado Deixe Ela Entrar) foi reescrito pelo americano Matt Reeves (Cloverfield – o monstro) e será refilmado para o cinema dos EUA e, portanto, do mundo. O desnecessário remake foi anunciado já no ano passado e esta semana ganhou seu primeiro trailer que confirma: trata-se de uma cópia diminuída de tudo aquilo que foi o original. Sabemos disso até porque também sabemos que não há espaço, na sociedade americana, para os valores transmitidos pelo filme sueco. Mesmo não tendo muitas informações acerca do roteiro, posso apostar com leitor que Eli (originalmente um menino vampiro de traços andróginos que foi genitalmente mutilado no passado) será transformado em uma menina vampira qualquer, sem nenhuma particularidade, o que a tornará tão sem graça quanto a garota de Crepúsculo, Bella. A maior parte dos norte-americanos, bem como a maior parte de todos nós, importadores da cultura deles, não seria capaz de assimilar o excêntrico relacionamento de Eli e Oskar, se não fosse feita essa mudança.

Sendo assim, temo por outras alterações que possam vir a ser feitas na refilmagem de objetivo comercial. Talvez por isso tenha optado por ilustrar o artigo somente com imagens do original. Quem quiser comparar, que compare. Os trailers de Deixe Ela Entrar e de sua refilmagem (divulgado essa semana) estão, respectivamente, abaixo: